• Context: A spinal cord integra estruturas anatômicas, circuitos segmentares e vias longas responsáveis pela motricidade, sensibilidade, postura, reflexos e funções autonômicas. Para o cirurgião de coluna, compreender essa organização exige relacionar três dimensões: a posição da medula e das raízes dentro do spinal canal, a distribuição da substância cinzenta e branca em cada corte transversal e o trajeto das vias ascendentes e descendentes. A dissociação entre níveis vertebrais e segmentos medulares torna essa correlação especialmente importante, pois uma lesão óssea ou compressiva pode comprometer estruturas neurais localizadas em nível diferente daquele sugerido pela vértebra correspondente. O capítulo também conecta a anatomia dos funículos, cornos, núcleos e lâminas de Rexed aos padrões clínicos de síndromes medulares, do cone e da cauda equina. Esse conhecimento permite localizar lesões, interpretar déficits motores e sensitivos, reconhecer diferenças entre comprometimento central, hemissecção, transecção e compressão e planejar abordagens cirúrgicas com maior precisão.
• Chapter Objective: Apresentar a anatomia macroscópica e interna da spinal cord, sua relação topográfica com a spine e a organização funcional de neurônios, lâminas de Rexed, funículos e tratos. Ao final, o leitor deverá correlacionar vias motoras, sensitivas e autonômicas com os achados do exame neurológico, distinguir padrões sindrômicos específicos e aplicar a localização neuroanatômica ao surgical planning e à interpretação das lesões medulares e radiculares.
• Anatomia macroscópica e topografia vertebromedularA spinal cord é descrita como uma estrutura cilíndrica alojada no spinal canal, contínua cranialmente com o bulbo no forame magno e terminando caudalmente ao nível de L2 no adulto. Sua extremidade afilada forma o conus medullaris, prolongado pelo filamento terminal. As intumescências cervical e lombossacral correspondem às regiões de origem das raízes destinadas aos plexos dos membros. Sulcos longitudinais delimitam a superfície medular e marcam a saída das raízes ventrais, eferentes, e a entrada das raízes dorsais, aferentes. Os 31 pares de nervos espinhais correspondem a 31 segmentos medulares. Como a coluna cresce mais que a medula após o período fetal inicial, as raízes inferiores se alongam e formam a cauda equina. Surge, assim, uma dissociação entre nível vertebral e segmento medular. O capítulo propõe a regra prática de somar dois aos processos espinhosos de C2 a T10; T11–T12 projetam-se sobre segmentos lombares e L1 sobre segmentos sacrais. A Figura 2, na página 6 do arquivo, ilustra essa relação e a continuidade entre cone, meninges e filamento terminal.
• Meninges e elementos de fixaçãoA dura-máter espinhal continua-se com a craniana e estende-se até S2. Seus prolongamentos acompanham as raízes e continuam com o epineuro. A pia-máter forma o filamento terminal, que atravessa o fundo de saco dural e participa da fixação caudal, e origina os ligamentos denteados. Dispostos lateralmente entre as emergências radiculares ventrais e dorsais, esses ligamentos estabilizam a medula e constituem marcos anatômicos em procedimentos intradurais.
• Organização da substância cinzentaEm corte transversal, a substância cinzenta assume formato de “H” e organiza-se em colunas anterior, posterior e lateral; esta última é descrita nos segmentos T1–L2. A classificação de Cajal diferencia neurônios radiculares, cordonais e interneurônios. Os motores somáticos alfa e gama participam da unidade motora e da coativação alfa-gama; os neurônios cordonais integram segmentos ou projetam-se para centros superiores; e interneurônios, como as células de Renshaw, modulam circuitos locais. As dez lâminas de Rexed organizam funcionalmente a substância cinzenta. As lâminas I–IV recebem aferências exteroceptivas; a lâmina II, ou substância gelatinosa de Rolando, participa da modulação da dor. As lâminas V–VII recebem informações proprioceptivas, VIII e IX relacionam-se ao controle motor, e a lâmina X circunda o canal central. A Figura 1, na página 3, reúne sulcos, funículos, envoltórios e essa organização transversal.
• Vias descendentes e controle motorO sistema motor lateral reúne principalmente os tratos corticoespinhal lateral e rubroespinhal. O primeiro exerce controle voluntário fino da musculatura distal, predominantemente contralateral após a decussação piramidal. O sistema medial inclui os tratos corticoespinhal anterior, tetoespinhal, vestibuloespinhais e reticuloespinhais, relacionados à musculatura axial e proximal, ao tônus, à postura, ao equilíbrio e aos ajustes automáticos da cabeça e do tronco.
• Vias ascendentes e correlação sindrômicaOs fascículos grácil e cuneiforme do funículo posterior conduzem propriocepção consciente, tato discriminativo, vibração e estereognosia. O trato espinotalâmico anterior conduz pressão e tato protopático; o lateral conduz dor e temperatura após cruzar pela comissura branca. As vias espinocerebelares transportam propriocepção inconsciente: a posterior permanece ipsilateral e a anterior cruza duas vezes, terminando no lado de origem. A Figura 3, na página 18, sintetiza a posição dos principais tratos. A disposição das vias explica padrões como Brown-Séquard, com déficit motor e proprioceptivo ipsilateral e perda contralateral de dor e temperatura; dissociação sensitiva na siringomielia; maior fraqueza nos membros superiores na síndrome medular central; e as diferenças entre síndrome do conus medullaris e síndrome da cauda equina.
• Clinical Application: A aplicação clínica começa pela localização. O exame motor deve integrar força, tônus e reflexos: déficit flácido e arreflexia sugerem comprometimento do neurônio motor inferior ou das raízes, enquanto espasticidade, hiperreflexia, clônus e sinal de Babinski apontam para lesão das vias motoras descendentes. Na avaliação sensitiva, a combinação entre propriocepção, tato discriminativo, dor e temperatura permite inferir quais funículos ou tratos estão comprometidos. A correlação vertebromedular auxilia a relacionar sintomas e imagens ao segmento neural correto. A regra prática apresentada no capítulo — somar dois entre C2 e T10 e considerar as projeções de T11 a L1 — funciona como orientação anatômica para definir o nível de interesse e planejar acessos ou laminotomias. Em procedimentos intradurais, os ligamentos denteados servem como marcos laterais da medula. Os padrões sindrômicos evitam erros de localização. Brown-Séquard combina perda motora e de sensibilidade profunda ipsilateral com perda contralateral de dor e temperatura. Lesões centrais podem produzir perda seletiva dessas modalidades ou maior déficit nos membros superiores. No conus medullaris, o capítulo destaca déficits simétricos, anestesia em sela e disfunção esfincteriana precoce; na cauda equina, predominam dor radicular, déficit flácido assimétrico e hipo ou arreflexia. A cautela principal é não confundir nível vertebral com segmento medular nem interpretar a força distal isoladamente, sem avaliar postura, equilíbrio e vias mediais.