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Tratado de Cirurgia da Coluna Vertebral
SEÇÃO 7Outras Doenças da Coluna
Capítulo59

Doenças Reumáticas da Coluna Vertebral

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Seção 7Outras Doenças da Coluna
Cap. 59Capítulo Clínico
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Referênciascientíficas
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Resumo do capítulo

Contexto: A dor axial é extremamente frequente, mas apenas uma parcela dos pacientes apresenta origem inflamatória. Reconhecer essa minoria é particularmente importante porque a espondiloartrite axial (EpA-axial) corresponde a uma doença inflamatória crônica capaz de produzir dor, rigidez, limitação funcional e alterações estruturais progressivas. Sua fisiopatologia envolve interação entre predisposição genética, fatores ambientais, estresse mecânico e ativação imunológica nas enteses, com inflamação e neoformação óssea ocorrendo de maneira paralela. O diagnóstico pode ser difícil porque não existe um teste isolado capaz de confirmar ou excluir a doença. História clínica, manifestações periféricas e extra-articulares, HLA-B27, marcadores inflamatórios e imagem das articulações sacroilíacas precisam ser interpretados conjuntamente. A ressonância magnética ampliou a capacidade de reconhecer inflamação antes das alterações radiográficas, mas também trouxe risco de superinterpretação. O capítulo enfatiza, portanto, diagnóstico contextualizado e manejo multidisciplinar entre reumatologista, radiologista, fisioterapia e, quando necessário, cirurgião de coluna.
Objetivo do capítulo: Reconhecer o padrão inflamatório de acometimento axial, com ênfase na espondiloartrite axial; compreender sua fisiopatologia centrada na entese; interpretar adequadamente manifestações clínicas, exames laboratoriais e radiografia ou RM das articulações sacroilíacas; diferenciar doenças que podem mimetizá-la; e compreender os princípios do tratamento conservador e as situações em que avaliação cirúrgica pode ser necessária.
Entese, inflamação e neoformação ósseaA entese é apresentada como um dos principais locais de início da inflamação. Em indivíduos predispostos, estímulos mecânicos e ambientais podem favorecer ativação imunológica e liberação de mediadores inflamatórios. A inflamação persistente associa-se tanto a erosões quanto a neoformação óssea, explicando a coexistência de dano e anquilose observada na evolução da EpA-axial.
O padrão clínico importaDor lombar inflamatória costuma ter início insidioso, curso prolongado, associação com rigidez e comportamento distinto da dor mecânica. A Tabela 59.1 reúne diferentes conjuntos de critérios clínicos utilizados para reconhecer esse padrão. Artrite periférica, entesite e dactilite podem acompanhar o quadro axial. Manifestações extra-articulares também integram o espectro das espondiloartrites.
Exame físico tem limitaçõesMedidas de mobilidade ajudam a documentar comprometimento funcional, porém testes provocativos das articulações sacroilíacas não possuem precisão suficiente para confirmar ou excluir isoladamente sacroileíte. Em doença avançada, alterações posturais podem refletir anquilose e perda progressiva de mobilidade.
Diagnóstico é integrativoO HLA-B27 aumenta a probabilidade diagnóstica em contextos apropriados, mas sua ausência não exclui a doença. O mesmo ocorre com os marcadores inflamatórios. Radiografia das articulações sacroilíacas continua importante para reconhecimento do dano estrutural. A Figura 59.1 e a Tabela 59.2 demonstram o espectro radiográfico da sacroileíte. Quando existe elevada suspeita clínica sem alterações radiográficas conclusivas, a RM pode demonstrar inflamação ativa. A Figura 59.2 ilustra edema de medula óssea e alterações estruturais. A Tabela 59.3 diferencia achados inflamatórios agudos e crônicos.
Evitar superdiagnóstico pela imagemEdema isolado ou alterações inespecíficas não equivalem automaticamente à EpA-axial. Trauma, degeneração, infecção e outras condições podem produzir achados semelhantes. A RM deve, portanto, ser interpretada com a história clínica, distribuição anatômica das lesões e demais elementos diagnósticos.
TratamentoExercício, fisioterapia e mudanças comportamentais integram todas as fases. O tratamento farmacológico é conduzido prioritariamente pelo reumatologista e pode progredir de anti-inflamatórios a terapias modificadoras da resposta imunológica conforme atividade e manifestações associadas. Cirurgia é reservada principalmente às consequências estruturais relevantes, como deformidade, instabilidade, fraturas ou déficit neurológico.
Aplicação clínica: Na prática, o primeiro desafio é distinguir dor mecânica de um padrão inflamatório. Um paciente jovem com dor axial persistente, rigidez, melhora com atividade e manifestações associadas merece investigação direcionada mesmo quando radiografias iniciais são normais. HLA-B27 e marcadores inflamatórios devem ser utilizados como elementos de probabilidade, não como testes binários. Resultado negativo não encerra a investigação se o fenótipo clínico for consistente. A interpretação da RM das sacroilíacas merece cautela especial. Como ilustrado na Figura 59.2, localização e padrão das alterações são importantes. Achados inespecíficos fora do contexto apropriado podem produzir diagnóstico excessivo e exposição desnecessária a tratamentos de longo prazo. Por outro lado, reconhecer precocemente a doença permite iniciar reabilitação e tratamento anti-inflamatório antes do estabelecimento de dano estrutural importante. Quando surgem deformidades, fraturas ou comprometimento neurológico, o cirurgião passa a integrar uma estratégia já coordenada pelo reumatologista, idealmente com atividade inflamatória controlada antes de intervenções eletivas.
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Palavras-chave

Descritores DeCS/MeSH preferenciais:
Espondiloartrite AxialAxial SpondyloarthritisEspondilite AnquilosanteSpondylitis, AnkylosingSacroileíteSacroiliitisEspondiloartropatiasSpondylarthropathiesArticulação SacroilíacaSacroiliac JointDor LombarLow Back PainAntígeno HLA-B27HLA-B27 AntigenImagem por Ressonância MagnéticaMagnetic Resonance Imaging

Por que este capítulo importa

A maioria das dores lombares é mecânica, mas deixar de reconhecer uma dor inflamatória pode atrasar por anos o diagnóstico de uma doença potencialmente progressiva. No extremo oposto, interpretar qualquer edema em RM como sacroileíte pode conduzir ao sobrediagnóstico. O capítulo oferece justamente o equilíbrio entre esses riscos, ensinando a reconhecer o fenótipo clínico da espondiloartrite axial e a utilizar exames laboratoriais e de imagem como complementos de uma avaliação integrada.

O diagnóstico da espondiloartrite axial não depende de um marcador laboratorial ou de uma única imagem. Ele resulta da integração entre padrão clínico, manifestações associadas, genética, inflamação e alterações estruturais ou ativas das articulações sacroilíacas. Reconhecimento precoce e interpretação criteriosa da RM permitem tratar a doença antes da progressão funcional sem transformar achados inespecíficos em diagnósticos excessivos.

Destaques do capítulo

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Card 1 — Dor inflamatória tem padrão
Dor axial inflamatória não é definida apenas pela intensidade. Idade de início, comportamento com repouso e exercício, rigidez e evolução ajudam a distingui-la da dor mecânica e orientam quando investigar espondiloartrite axial.

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Card 2 — Exame normal não exclui
Ausência de HLA-B27 ou marcadores inflamatórios normais não elimina a possibilidade de EpA-axial. Esses resultados precisam ser interpretados junto ao padrão clínico e aos achados de imagem, especialmente nas apresentações iniciais.

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Card 3 — Cuidado com a RM
Edema de medula óssea nas sacroilíacas pode ocorrer em outras condições. Localização anatômica, associação com alterações estruturais e coerência com a história clínica são essenciais para evitar que um achado inespecífico seja interpretado como doença inflamatória definitiva.

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