• Contexto: A abordagem anterior é uma das bases históricas da cirurgia cervical, principalmente após a consolidação da discectomia cervical anterior com fusão. A endoscopia introduz a possibilidade de tratar determinadas compressões anteriores de maneira direcionada, preservando movimento e evitando implantes em situações selecionadas. Sua aplicação, entretanto, ocorre em um corredor anatômico de alta complexidade, limitado por esôfago e traqueia medialmente e por estruturas vasculares lateralmente, além da proximidade da artéria vertebral. O reduzido espaço do canal cervical e a baixa tolerância da medula à manipulação tornam esse procedimento um estágio avançado da curva de aprendizado endoscópica. As abordagens transdiscal e transcorpórea oferecem diferentes soluções para hérnias e osteófitos, cada uma com vantagens e limitações próprias. A decisão deve integrar sintomas, topografia da compressão, estabilidade, altura discal, anatomia óssea e experiência específica da equipe.
• Objetivo do capítulo: Apresentar anatomia aplicada, indicações, contraindicações e fundamentos técnicos da endoscopia cervical anterior. O leitor deverá compreender os acessos transdiscal e transcorpóreo, selecionar pacientes por correlação clinicorradiológica, reconhecer situações que favoreçam outra abordagem e antecipar complicações neurológicas, durais, vasculares e viscerais.
• O corredor anteriorO acesso transdiscal utiliza um corredor entre as estruturas viscerais e vasculares do pescoço, representado esquematicamente na Figura 66.1. Os autores valorizam palpação e instrumental rombo para criar o trajeto até a face anterior da coluna. A artéria vertebral torna-se particularmente relevante em trajetórias mais laterais. Em determinados casos, uma trajetória contralateral pode melhorar o ângulo para uma lesão lateral.
• Transdiscal e transcorpóreoA abordagem transdiscal proporciona acesso direto ao disco e a fragmentos centrais ou centrolaterais. A alternativa transcorpórea cria um corredor ósseo pelo corpo vertebral, evitando maior manipulação discal, mas túneis excessivos podem comprometer a resistência vertebral.
• Indicação e seleçãoO capítulo enfatiza radiculopatia ou mielopatia com correlação clínica e radiográfica definida. Alterações degenerativas incidentais não são indicação. Instabilidade segmentar contraindica a endoscopia isolada. Colapso importante do espaço discal pode dificultar a via transdiscal. Ossificação extensa do ligamento longitudinal posterior e deformidades complexas aumentam a exigência técnica e devem ser avaliadas individualmente. RM, radiografias dinâmicas e TC são complementares no planejamento.
• Evidências e preservação de movimentoSéries e estudos comparativos apresentados no capítulo descrevem resultados clínicos favoráveis e recuperação rápida em pacientes bem selecionados. A preservação do movimento e a ausência de implantes diferenciam conceitualmente a endoscopia da fusão. Ao mesmo tempo, os autores reconhecem a ausência de séries endoscópicas específicas com seguimentos muito prolongados, de modo que inferências sobre prevenção de doença do segmento adjacente devem ser consideradas com cautela.
• Complicações e curva de aprendizadoA Tabela 66.1 sistematiza paresia radicular, lesão medular ou radicular, hematoma, lesão dural, lesões da artéria vertebral, carótida ou jugular, infecção, disfagia, disfonia, instabilidade tardia, descompressão insuficiente e recorrência. O capítulo trata a endoscopia cervical como procedimento avançado, dependente de treinamento progressivo e supervisionado.
• Aplicação clínica: A indicação deve responder a uma pergunta anatômica precisa: a lesão responsável pelos sintomas pode ser alcançada e descomprimida de forma segura por um corredor anterior endoscópico sem criar instabilidade ou risco desproporcional? RM identifica a relação do disco ou osteófito com raiz e medula. TC esclarece calcificação, osteofitose e anatomia óssea; radiografias dinâmicas investigam instabilidade. Uma lesão foraminal pode permitir tanto acesso anterior quanto posterior, e a escolha deve considerar localização, altura discal e experiência da equipe. Durante o acesso anterior, a proteção vascular e visceral começa antes da introdução do endoscópio. Instrumentos perfurantes não devem ser utilizados para criar cegamente o corredor. Na fase endoscópica, não há margem para manipulação direta da medula. No pós-operatório, a ausência de fusão permite mobilização precoce, mas não elimina a necessidade de acompanhamento. Dor persistente, novo déficit ou sintomas atípicos devem motivar investigação de descompressão insuficiente, hematoma, lesão dural ou complicação vascular.