• Context: A scoliosis de início precoce (EIP) representa um grave desafio terapêutico na cirurgia da coluna, exigindo o controle da progressão da deformidade sem comprometer o crescimento espinhal e o desenvolvimento pulmonar em crianças em fase de crescimento. O surgimento das técnicas de crescimento guiado, em especial as hastes de crescimento tradicionais (TGR), revolucionou esse cenário ao permitir o adiamento ou a prevenção da fusão vertebral definitiva, assegurando o ganho axial do tronco. Contudo, a condução desses casos envolve obstáculos complexos, como a alta taxa de complicações mecânicas e biológicas a longo prazo, a necessidade de procedimentos cirúrgicos repetitivos de distração e o risco de fusão espontânea indesejada. Além disso, o cirurgião enfrenta o desafio de selecionar a configuração ideal dos implantes e o momento correto para intervir, equilibrando a correção angular com a preservação anatômica. O domínio do planejamento pré-operatório, da técnica operatória e da condução até a maturidade esquelética é fundamental para reduzir falhas e otimizar os resultados funcionais.
• Chapter Objective: Este capítulo capacita o leitor a compreender e aplicar a técnica de hastes de crescimento tradicionais no tratamento da scoliosis de início precoce. Ao final da leitura, o profissional estará apto a indicar e contraindicar o procedimento, realizar um planejamento pré-operatório detalhado — incluindo a avaliação por imagem e o preparo com tração —, executar os passos cirúrgicos com preservação anatômica e manejar as complicações mais frequentes, além de tomar decisões embasadas ao atingir a maturidade esquelética.
• Visão Geral e FundamentosIndicações e Contraindicações As hastes de crescimento tradicionais (TGR) são indicadas para escolioses progressivas diagnosticadas antes dos 10 anos de idade que apresentem falha do conservative treatment com colete, gesso seriado ou tração. Abrangem etiologias neuromusculares, congênitas, sindrômicas e idiopáticas, além de pacientes com paralisia cerebral, distrofia muscular ou atrofia muscular espinhal, visando à estabilização da coluna e à manutenção da capacidade funcional. As contraindicações absolutas incluem infecção ativa e instabilidade clínica severa. Já as contraindicações relativas envolvem deformidades extremamente rígidas sem capacidade de correção gradual, hipercifose grave e comprometimento pulmonar severo, observando-se que a tração halogravitacional prévia com suporte ventilatório não invasivo pode auxiliar na reavaliação de casos respiratórios graves. Avaliação e Planejamento Pré-Operatório O planejamento exige full-spine panoramic radiographs em AP e perfil (em ortostase ou sentado) e em decúbito dorsal sob tração para mensurar a flexibilidade da curva. A computed tomography (CT) é indicada em displasias de pelve ou para planejamento da anatomia óssea nos locais de ancoragem. A magnetic resonance imaging (MRI) de todo o neuroeixo é obrigatória para afastar causas secundárias. A avaliação pulmonar e cardiológica deve ser realizada, destacando-se o papel da tração halogravitacional pré-operatória em curvas maiores que 90°, a qual reduz a angulação de Cobb e melhora a função respiratória. Técnica Cirúrgica Passo a Passo Sob anestesia geral, neuromonitoração multimodal e posicionamento em decúbito ventral, aplica-se tração halofemoral perioperatória para atenuar a sobrecarga no sistema de distração. A abordagem posterior minimamente invasiva realiza dissecção subperiosteal restrita às áreas de ancoragem proximal e distal, preservando a musculatura e a vascularização no segmento intermediário para evitar autofusão. A ancoragem proximal (geralmente T2-T4) utiliza preferencialmente ganchos sublaminares nos níveis mais superiores para diminuir a rigidez e prevenir o arrancamento e a kyphosis juncional proximal (PJK). A ancoragem distal (lombar ou ilíaca) combina pedicle screws (que neutralizam forças rotacionais) e ganchos subpediculares (para controle de cargas axiais). As hastes duplas são pré-moldadas e passadas por via subfascial com o auxílio de um guia. Os conectores (dominós ou tubos em linha) devem ser posicionados na transição toracolombar. No tempo inicial, não se utiliza o curso de distração dos dispositivos, reservando-o para cirurgias subsequentes, e instalam-se dispositivos de tração transversal (DTTs) para garantir estabilidade. Resultados e Complicações A técnica TGR apresenta correção final do ângulo de Cobb em torno de 44% e ganho de crescimento T1-S1 de aproximadamente 1,0 cm/ano, superior a outras modalidades, porém à custa de cirurgias de revisão programadas. As complicações variam de 22% a 48%, englobando falhas mecânicas (quebra de haste, soltura de implantes) e biológicas (infecção, pseudarthrosis, autofusão e PJK). Na maturidade esquelética (Risser 4), a conduta pode envolver a fusão espinhal posterior definitiva ou a retenção da construção dupla; a remoção isolada do implante sem fusão é contraindicada devido ao elevado risco de perda de correção.
• Clinical Application: A aplicação prática do capítulo centra-se na condução sistemática da scoliosis de início precoce, orientando o cirurgião desde a seleção do paciente até o acompanhamento no término do crescimento. Diante de curvas progressivas em crianças menores de 10 anos, a investigação pré-operatória com RM do neuroeixo e testes funcionais respiratórios previne intervenções inadequadas. Em deformidades severas (> 90°), a instituição de tração halogravitacional prévia reduz o risco cirúrgico e otimiza a flexibilidade. No ato cirúrgico, a precisão técnica exige o emprego de tração halofemoral peroperatória e uma dissecção subperiosteal estritamente localizada nas extremidades, protegendo o segmento intermediário contra a autofusão. A escolha da ancoragem proximal com ganchos sublaminares é uma decisão crucial para mitigar a kyphosis juncional proximal. Durante o acompanhamento, o planejamento de procedimentos repetitivos de distração exige rigor asséptico e monitoramento mecânico do material. Por fim, ao alcançar a maturidade esquelética (Risser 4), o cirurgião deve optar entre a fusão posterior definitiva e a manutenção do implante, evitando categoricamente a retirada isolada das hastes, responsável pelo colapso da deformidade na grande maioria dos casos.