Resumo Clínico do Capítulo
Síntese acadêmica, metodologia diagnóstica e recomendações cirúrgicasA dor relacionada à coluna é uma das queixas musculoesqueléticas mais frequentes e produz repercussões funcionais, sociais e econômicas significativas. Embora grande parte dos episódios agudos apresente evolução favorável, a persistência dos sintomas pode envolver sensibilização periférica e central, fatores psicossociais e mecanismos distintos de dor. O desafio clínico não consiste apenas em quantificar sua intensidade, mas em reconhecer a provável origem, distinguir componentes nociceptivos, neuropáticos e nociplásticos, identificar condições graves e avaliar a repercussão funcional. O capítulo também diferencia as chamadas bandeiras vermelhas, que sugerem patologias potencialmente relevantes, das bandeiras amarelas, relacionadas ao risco de cronificação e incapacidade. Essa abordagem amplia o manejo além da prescrição de analgésicos e incorpora educação, atividade física, intervenções psicológicas, farmacoterapia individualizada e procedimentos intervencionistas para situações selecionadas.
Apresentar uma abordagem estruturada da dor aguda e crônica da coluna, desde a identificação dos mecanismos fisiopatológicos e das principais etiologias até a avaliação clínica e funcional. O leitor deverá compreender o papel das medidas farmacológicas, não farmacológicas e intervencionistas, reconhecer fatores de cronificação e utilizar objetivos terapêuticos centrados em funcionalidade e qualidade de vida.
A dor aguda cumpre função de alerta, enquanto sua persistência pode acompanhar mudanças na excitabilidade do sistema nervoso. O capítulo diferencia dor nociceptiva, relacionada à ativação de nociceptores; neuropática, associada a lesão ou doença do sistema somatossensorial; e nociplástica, na qual existe nocicepção alterada sem demonstração suficiente de dano tecidual ou lesão somatossensorial que explique isoladamente o quadro. O Quadro 102.1 organiza fatores associados à cronificação, incluindo elementos de estilo de vida, aspectos emocionais, comportamento de medo e evitação, ambiente ocupacional e maior carga inicial de doença.
Dor discogênica, radicular, facetária, miofascial, sacroilíaca e inflamatória apresentam características diferentes. Infecção, fratura, neoplasia e outras condições menos frequentes precisam ser lembradas quando o contexto clínico as torna plausíveis. A magnitude de uma alteração radiológica não corresponde necessariamente à intensidade dos sintomas. Esse princípio é particularmente importante ao interpretar alterações degenerativas e hérnias discais.
A investigação começa pela anamnese estruturada, apresentada no Quadro 102.2, e pelo exame físico e neurológico. Postura, marcha, amplitude de movimento, palpação e impacto funcional complementam a avaliação. Escalas simples mensuram intensidade, enquanto instrumentos multidimensionais exploram características sensoriais, afetivas e funcionais. O capítulo apresenta, entre outros, escala visual analógica, escala numérica verbal, questionário de McGill, Inventário Breve de Dor, Neck Disability Index e Roland-Morris Disability Questionnaire. Exames de imagem devem ser utilizados de forma seletiva, especialmente quando há sinais de alerta ou quando o resultado tem potencial para modificar o tratamento.
Nos quadros agudos sem sinais de gravidade, a estratégia privilegia educação, manutenção de atividade, exercícios progressivos e tratamento sintomático individualizado. Analgésicos e anti-inflamatórios podem integrar o plano, enquanto opioides ficam reservados a situações de maior intensidade ou refratariedade e por período limitado. Na dor crônica, a meta passa progressivamente da simples redução da intensidade dolorosa para recuperação funcional e qualidade de vida. Neuromoduladores, terapias psicológicas e exercício podem assumir papel importante. Quando medidas conservadoras são insuficientes, bloqueios diagnósticos e terapêuticos, radiofrequência, injeções epidurais ou neuromodulação podem ser considerados de acordo com o provável gerador da dor e a seleção clínica.
O tratamento começa definindo qual problema está sendo tratado. Dor axial, radicular ou mista; componentes nociceptivos, neuropáticos ou nociplásticos; impacto funcional; fatores emocionais e sinais de doença grave precisam ser identificados antes do escalonamento terapêutico. A Tabela 102.2 oferece uma distinção prática entre bandeiras amarelas e vermelhas. As primeiras orientam atenção ao risco de incapacidade persistente; as últimas podem justificar investigação diagnóstica mais imediata. Nenhum desses elementos deve ser interpretado isoladamente, mas dentro da história e do exame. Nos quadros crônicos, repetir prescrições ou aumentar progressivamente a carga medicamentosa sem revisar o diagnóstico constitui uma estratégia insuficiente. O capítulo favorece participação ativa do paciente, exercícios, intervenções psicológicas quando indicadas e uso criterioso de medicamentos. Procedimentos intervencionistas também exigem diagnóstico: bloqueios podem ajudar a identificar determinados geradores de dor antes de intervenções mais duradouras. Em pacientes com múltiplos fatores de mau prognóstico, expectativas e objetivos funcionais devem ser explicitamente discutidos antes de qualquer procedimento.
