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Seção 88Capítulo 85 de 109

Sistemas de Crescimento Guiado para Deformidades da Coluna: Hastes de Crescimento Tradicionais

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Capa 3D Tratado de Coluna

Resumo Clínico do Capítulo

Síntese acadêmica, metodologia diagnóstica e recomendações cirúrgicas
Contexto Clínico

A escoliose de início precoce (EIP) representa um grave desafio terapêutico na cirurgia da coluna, exigindo o controle da progressão da deformidade sem comprometer o crescimento espinhal e o desenvolvimento pulmonar em crianças em fase de crescimento. O surgimento das técnicas de crescimento guiado, em especial as hastes de crescimento tradicionais (TGR), revolucionou esse cenário ao permitir o adiamento ou a prevenção da fusão vertebral definitiva, assegurando o ganho axial do tronco. Contudo, a condução desses casos envolve obstáculos complexos, como a alta taxa de complicações mecânicas e biológicas a longo prazo, a necessidade de procedimentos cirúrgicos repetitivos de distração e o risco de fusão espontânea indesejada. Além disso, o cirurgião enfrenta o desafio de selecionar a configuração ideal dos implantes e o momento correto para intervir, equilibrando a correção angular com a preservação anatômica. O domínio do planejamento pré-operatório, da técnica operatória e da condução até a maturidade esquelética é fundamental para reduzir falhas e otimizar os resultados funcionais.

Objetivo do Capítulo

Este capítulo capacita o leitor a compreender e aplicar a técnica de hastes de crescimento tradicionais no tratamento da escoliose de início precoce. Ao final da leitura, o profissional estará apto a indicar e contraindicar o procedimento, realizar um planejamento pré-operatório detalhado — incluindo a avaliação por imagem e o preparo com tração —, executar os passos cirúrgicos com preservação anatômica e manejar as complicações mais frequentes, além de tomar decisões embasadas ao atingir a maturidade esquelética.

Visão Geral e Fundamentos

Indicações e Contraindicações As hastes de crescimento tradicionais (TGR) são indicadas para escolioses progressivas diagnosticadas antes dos 10 anos de idade que apresentem falha do tratamento conservador com colete, gesso seriado ou tração. Abrangem etiologias neuromusculares, congênitas, sindrômicas e idiopáticas, além de pacientes com paralisia cerebral, distrofia muscular ou atrofia muscular espinhal, visando à estabilização da coluna e à manutenção da capacidade funcional. As contraindicações absolutas incluem infecção ativa e instabilidade clínica severa. Já as contraindicações relativas envolvem deformidades extremamente rígidas sem capacidade de correção gradual, hipercifose grave e comprometimento pulmonar severo, observando-se que a tração halogravitacional prévia com suporte ventilatório não invasivo pode auxiliar na reavaliação de casos respiratórios graves. Avaliação e Planejamento Pré-Operatório O planejamento exige radiografias panorâmicas em AP e perfil (em ortostase ou sentado) e em decúbito dorsal sob tração para mensurar a flexibilidade da curva. A tomografia computadorizada é indicada em displasias de pelve ou para planejamento da anatomia óssea nos locais de ancoragem. A ressonância magnética de todo o neuroeixo é obrigatória para afastar causas secundárias. A avaliação pulmonar e cardiológica deve ser realizada, destacando-se o papel da tração halogravitacional pré-operatória em curvas maiores que 90°, a qual reduz a angulação de Cobb e melhora a função respiratória. Técnica Cirúrgica Passo a Passo Sob anestesia geral, neuromonitoração multimodal e posicionamento em decúbito ventral, aplica-se tração halofemoral perioperatória para atenuar a sobrecarga no sistema de distração. A abordagem posterior minimamente invasiva realiza dissecção subperiosteal restrita às áreas de ancoragem proximal e distal, preservando a musculatura e a vascularização no segmento intermediário para evitar autofusão. A ancoragem proximal (geralmente T2-T4) utiliza preferencialmente ganchos sublaminares nos níveis mais superiores para diminuir a rigidez e prevenir o arrancamento e a cifose juncional proximal (PJK). A ancoragem distal (lombar ou ilíaca) combina parafusos pediculares (que neutralizam forças rotacionais) e ganchos subpediculares (para controle de cargas axiais). As hastes duplas são pré-moldadas e passadas por via subfascial com o auxílio de um guia. Os conectores (dominós ou tubos em linha) devem ser posicionados na transição toracolombar. No tempo inicial, não se utiliza o curso de distração dos dispositivos, reservando-o para cirurgias subsequentes, e instalam-se dispositivos de tração transversal (DTTs) para garantir estabilidade. Resultados e Complicações A técnica TGR apresenta correção final do ângulo de Cobb em torno de 44% e ganho de crescimento T1-S1 de aproximadamente 1,0 cm/ano, superior a outras modalidades, porém à custa de cirurgias de revisão programadas. As complicações variam de 22% a 48%, englobando falhas mecânicas (quebra de haste, soltura de implantes) e biológicas (infecção, pseudoartrose, autofusão e PJK). Na maturidade esquelética (Risser 4), a conduta pode envolver a fusão espinhal posterior definitiva ou a retenção da construção dupla; a remoção isolada do implante sem fusão é contraindicada devido ao elevado risco de perda de correção.

Aplicação Clínica & Diretrizes

A aplicação prática do capítulo centra-se na condução sistemática da escoliose de início precoce, orientando o cirurgião desde a seleção do paciente até o acompanhamento no término do crescimento. Diante de curvas progressivas em crianças menores de 10 anos, a investigação pré-operatória com RM do neuroeixo e testes funcionais respiratórios previne intervenções inadequadas. Em deformidades severas (> 90°), a instituição de tração halogravitacional prévia reduz o risco cirúrgico e otimiza a flexibilidade. No ato cirúrgico, a precisão técnica exige o emprego de tração halofemoral peroperatória e uma dissecção subperiosteal estritamente localizada nas extremidades, protegendo o segmento intermediário contra a autofusão. A escolha da ancoragem proximal com ganchos sublaminares é uma decisão crucial para mitigar a cifose juncional proximal. Durante o acompanhamento, o planejamento de procedimentos repetitivos de distração exige rigor asséptico e monitoramento mecânico do material. Por fim, ao alcançar a maturidade esquelética (Risser 4), o cirurgião deve optar entre a fusão posterior definitiva e a manutenção do implante, evitando categoricamente a retirada isolada das hastes, responsável pelo colapso da deformidade na grande maioria dos casos.

Descritores Científicos DeCS / MeSH

EscolioseColuna VertebralImplantes EspinaisProcedimentos Cirúrgicos OperatóriosTraçãoScoliosisSpineSpinal ImplantsSurgical Procedures, OperativeTractionHastes de crescimento tradicionaisEscoliose de início precoce

Por que este capítulo importa

O manejo da escoliose de início precoce impõe o desafio de corrigir deformidades graves sem comprometer a expansão torácica e a altura do tronco. Este capítulo oferece diretrizes cirúrgicas práticas sobre a técnica de hastes de crescimento tradicionais, detalhando estratégias para prevenir complicações como a autofusão e a cifose juncional proximal. Ao abordar desde a tração pré-operatória e a seleção de ancoragens híbridas até a conduta definitiva na maturidade esquelética, o texto fornece ao cirurgião os subsídios necessários para tomar decisões seguras, minimizar falhas mecânicas e proteger a função respiratória e a qualidade de vida do paciente pediátrico.

As hastes de crescimento tradicionais constituem uma técnica consagrada para a escoliose de início precoce, permitindo o controle da deformidade e o desenvolvimento axial e pulmonar contínuo. Sua eficácia baseia-se no planejamento rigoroso, no uso de hastes duplas com ancoragem híbrida e na preservação da anatomia intermediária para evitar a autofusão. Ao final do crescimento, a tomada de decisão exige a fusão definitiva ou a retenção do implante, sendo a remoção isolada formalmente contraindicada.
Card 1 — Conceito essencial Preservação da Musculatura Intermediária A dissecção subperiosteal na técnica de hastes de crescimento tradicionais deve ser estritamente limitada às regiões de ancoragem proximal e distal. A preservação da musculatura e vascularização do segmento intermediário da coluna é fundamental para impedir a autofusão espontânea, garantindo a mobilidade e o crescimento axial contínuo ao longo de todo o tratamento.

Card 2 — Decisão clínica Estratégia na Maturidade Esquelética Ao atingir o estágio Risser 4, o cirurgião pode optar pela fusão espinhal posterior definitiva ou pela retenção do implante em casos com correção satisfatória. No entanto, a remoção simples das hastes sem a realização de fusão concomitante deve ser evitada, pois resulta em piora da deformidade e perda de correção em 90% dos pacientes.

Card 3 — Pérola ou alerta Ancoragem Híbrida para Prevenção de PJK Na ancoragem proximal (geralmente T2-T4), recomenda-se a utilização de ganchos sublaminares nos níveis superiores em vez de parafusos pediculares. Essa abordagem proporciona menor rigidez mecânica e reduz o risco de arrancamento dos implantes, diminuindo expressivamente a ocorrência de cifose juncional proximal (PJK) durante o acompanhamento a longo prazo.

Referências Bibliográficas Selecionadas

Literatura de alto impacto indexada no PubMed / DOI
20 Referências
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Episódio 1 – Capítulo 8: Coluna Vertebral no Plano Sagital

Aprofunde-se no debate científico com os autores do capítulo discutindo casos práticos e condutas cirúrgicas.