Início›O Tratado›Capítulos›Capítulo 13
Tratado de Cirurgia da Coluna Vertebral
SEÇÃO 2 • Diagnóstico
Capítulo13

Neurofisiologia no Diagnóstico das Patologias da Coluna

Vancouver: Ferreira RJR, Nogueira PTB, Pontes RWF📖 Páginas: 171-184
A leitura completa deste capítulo está disponível exclusivamente na edição impressa do Tratado.
Seção 2Diagnóstico
Cap. 13Capítulo Clínico
3autores
Português
Español
English
Referênciascientíficas
📑

Resumo do capítulo

• Contexto: A neurofisiologia clínica complementa a anamnese, o exame neurológico e os exames de imagem ao demonstrar o funcionamento do sistema nervoso central e periférico. Nas patologias da coluna, seu principal papel ambulatorial está na investigação de radiculopatias, na estimativa da gravidade e da temporalidade da lesão e na diferenciação de neuropatias, plexopatias e doenças do neurônio motor. A eletroneuromiografia reúne estudos de condução nervosa e eletromiografia com agulha, modalidades complementares cujos resultados dependem da hipótese clínica, da seleção dos nervos e músculos e do momento em que o exame é realizado. O potencial de ação sensitivo tende a permanecer normal nas lesões radiculares pré-ganglionares, enquanto a eletromiografia identifica sinais de desnervação e reinervação. Entretanto, exames normais não excluem radiculopatia recente, puramente desmielinizante ou exclusivamente sensitiva. Os potenciais somatossensoriais evocados têm aplicação limitada nas radiculopatias, mas podem acrescentar informação em mielopatias sintomáticas. A interpretação final exige correlação clínica e radiológica.
• Objetivo do capítulo: Apresentar os principais testes neurofisiológicos ambulatoriais empregados nas doenças da coluna e esclarecer o que cada método pode demonstrar e quais são suas limitações. Ao final, o leitor deverá compreender a composição da eletroneuromiografia, interpretar padrões pré e pós-ganglionares, reconhecer a contribuição temporal da eletromiografia com agulha, avaliar o papel dos potenciais evocados e utilizar o exame na diferenciação entre radiculopatias, neuropatias, plexopatias, mielopatias e doenças do neurônio motor.
• Eletroneuromiografia orientada pela hipótese clínicaA eletroneuromiografia resulta da associação entre estudos de condução nervosa e eletromiografia com agulha. O capítulo a define como extensão do exame físico e ressalta que o encaminhamento deve conter dados clínicos e suspeita diagnóstica, complementados por breve anamnese e exame neurológico pelo neurofisiologista. O protocolo é dinâmico: os nervos e músculos selecionados variam conforme a hipótese, e os estudos de condução devem ser realizados bilateralmente para comparação.
• Condução nervosa e localização da lesãoA condução motora avalia o potencial de ação muscular composto, a amplitude, a sincronia e a velocidade das fibras mais rápidas. Nas radiculopatias, pode permanecer normal ou pouco alterada, pois a lesão é proximal e a maior parte dos músculos recebe contribuição de mais de um miótomo. Ondas F e reflexo H acrescentam informação sobre segmentos proximais, mas possuem limitações. A condução sensitiva é decisiva no diagnóstico diferencial. Como a compressão radicular degenerativa costuma ocorrer proximalmente ao gânglio da raiz dorsal, o potencial de ação sensitivo (PAS) geralmente permanece normal. O esquema da Figura 3 contrapõe essa situação pré-ganglionar às lesões pós-ganglionares, nas quais ocorre degeneração distal e alteração do PAS. O capítulo descreve como exceções a radiculopatia de L5 em determinadas posições do gânglio e as hérnias extraforaminais.
• Eletromiografia com agulha e temporalidadeA eletromiografia com agulha é o componente mais informativo para demonstrar comprometimento radicular com envolvimento axonal. O capítulo sugere avaliar pelo menos seis músculos, incluindo paravertebrais e músculos do mesmo miótomo inervados por nervos periféricos diferentes. Fibrilações e ondas agudas positivas indicam instabilidade de membrana em fibras desnervadas; durante a contração, morfologia, duração, amplitude, fases e recrutamento dos potenciais de ação de unidades motoras ajudam a classificar gravidade e curso como agudo, subagudo, crônico ou crônico agudizado. A Tabela 3 organiza essas alterações ao longo do tempo. Lesões muito recentes, puramente desmielinizantes ou restritas à raiz sensitiva podem produzir exame normal.
• Situações específicas e potenciais evocadosA eletroneuromiografia localiza o miótomo, não necessariamente o nível discal responsável; a distribuição das raízes na cauda equina e as variações anatômicas explicam possíveis discrepâncias com a imagem. Na estenose cervical, o exame não avalia diretamente o neurônio motor superior, mas pode demonstrar comprometimento segmentar do neurônio motor inferior ou radiculopatia associada. Na estenose lombar, pode ser normal inicialmente e tornar-se multirradicular bilateral com a evolução. A avaliação torácica é possível, porém a inervação multissegmentar reduz a precisão e a agulha em músculos intercostais exige cautela pelo risco de pneumotórax.Os potenciais somatossensoriais evocados (PESS) têm utilidade limitada nas radiculopatias e maior aplicação potencial em mielopatias sintomáticas com comprometimento das colunas posteriores. Para casos de dissociação clínico-radiológica na mielopatia cervical, o capítulo apresenta como proposta dos autores a Avaliação Neurofisiológica Multimodal Dinâmica Cervical (ANMDC), combinando PESS e potencial evocado motor por estimulação elétrica transcraniana em repouso, flexão, extensão e tração dos ombros. O texto não apresenta dados de validação do protocolo, que deve ser distinguido de uma recomendação estabelecida.
• Aplicação clínica: Na prática, a eletroneuromiografia é particularmente útil quando dor irradiada, fraqueza ou alteração sensitiva podem decorrer de mais de um nível ou de doenças diferentes. Na suspeita de radiculopatia, o estudo deve ser bilateral e incluir condução nervosa e amostragem adequada por agulha. PAS preservado favorece uma lesão pré-ganglionar; PAS alterado deve levar à investigação de plexopatia, neuropatia compressiva, polineuropatia ou outra lesão pós-ganglionar, reconhecendo as exceções descritas para L5 e hérnias extraforaminais. O momento do exame modifica sua sensibilidade. Um resultado normal muito cedo, em lesão desmielinizante sem degeneração walleriana ou em comprometimento exclusivamente sensitivo não afasta radiculopatia. Além disso, o laudo deve ser correlacionado à imagem, pois o exame localiza o miótomo e não determina isoladamente o disco ou forame responsável. Essa integração é decisiva em cenários como síndrome do túnel do carpo versus radiculopatia cervical, plexopatia braquial, possível síndrome do duplo esmagamento, mielopatia cervical versus doença do neurônio motor, amiotrofia diabética e pé caído por L5 versus neuropatia fibular na cabeça da fíbula. Na radiculopatia torácica, a seleção muscular e o risco de pneumotórax limitam o estudo. PESS deve ser reservado às perguntas que envolvem vias somatossensoriais centrais; a ANMDC, apresentada pelos autores, deve permanecer identificada como proposta ainda não validada no próprio capítulo.
🏷️

Palavras-chave

Descritores DeCS/MeSH preferenciais:
EletrodiagnósticoElectrodiagnosisEletromiografiaElectromyographyEstudos de Condução NervosaNerve Conduction StudiesRadiculopatiaRadiculopathyPotenciais Somatossensoriais EvocadosEvoked Potentials, SomatosensoryPotencial Evocado MotorEvoked Potentials, MotorDiagnóstico DiferencialDiagnosis, DifferentialDoenças do Sistema Nervoso PeriféricoPeripheral Nervous System Diseases
⭐

Por que este capítulo importa

Exames de imagem demonstram compressão e degeneração, mas não informam sozinhos se a alteração é funcionalmente relevante, ativa ou responsável pelos sintomas. Este capítulo mostra como condução nervosa, eletromiografia com agulha e potenciais evocados respondem perguntas diferentes. A distinção entre lesão pré-ganglionar e pós-ganglionar, o reconhecimento do tempo necessário para surgirem sinais de desnervação e a investigação de diagnósticos coexistentes podem modificar a interpretação de uma dor irradiada e evitar que uma neuropatia periférica, plexopatia ou doença do neurônio motor seja tratada como radiculopatia.

“A neurofisiologia acrescenta uma dimensão funcional à avaliação das doenças da coluna. A eletroneuromiografia pode localizar o miótomo comprometido, graduar a lesão, estimar sua fase evolutiva e separar radiculopatias de neuropatias, plexopatias e doenças do neurônio motor. Seu valor, porém, depende de técnica adequada, amostragem suficiente, momento oportuno e correlação obrigatória com a clínica e a imagem; um exame normal não exclui todas as formas de radiculopatia.”
✨

Destaques do capítulo

🌐
Card 1 — Conceito essencial
Dois métodos, uma interpretação

A eletroneuromiografia combina condução nervosa e eletromiografia com agulha. A primeira caracteriza nervos periféricos, respostas tardias e reflexos; a segunda demonstra desnervação, reinervação e recrutamento muscular. O diagnóstico de radiculopatia depende da integração entre as duas modalidades, da hipótese clínica e da seleção apropriada dos músculos.

🩺
Card 2 — Decisão clínica
Leia o PAS primeiro

Na maioria das radiculopatias degenerativas, o PAS permanece normal porque a compressão é pré-ganglionar. Quando ele está alterado, amplie o exame e considere plexopatia, neuropatia compressiva ou outra lesão pós-ganglionar. L5 e hérnias extraforaminais constituem exceções importantes descritas no capítulo.

📐
Card 3 — Pérola ou alerta
Exame normal não exclui

A ausência de alterações não exclui radiculopatia recente, puramente desmielinizante ou exclusivamente sensitiva. Amostrar poucos músculos, omitir paravertebrais ou escolher músculos do mesmo nervo periférico reduz a capacidade de localização. O rendimento do exame depende tanto do momento quanto da técnica e da experiência do examinador.

📑

Como Citar este Capítulo (Formato Vancouver)

Indexação bibliográfica oficial do Tratado SBC
📖 Páginas: 171-184Vancouver Style
Autores (Vancouver):Ferreira RJR, Nogueira PTB, Pontes RWF

Ferreira RJR, Nogueira PTB, Pontes RWF. Neurofisiologia no diagnóstico das patologias da coluna. In: Pudles E, Defino H, Risso M, editores. Tratado de cirurgia da coluna vertebral. 1. ed. Rio de Janeiro: Dilivros Editora; 2026. p. 171-184.

ISBN: 978-85-8053-292-0 • 1.ª Edição • Dilivros Editora
📚

Referências bibliográficas

1. Preston DC, Shapiro BE. Electromyography and neuromuscular disorders: clinical-electrophysiologic-ultrasound correlations. 4th ed. Philadelphia: Elsevier; 2021.
2. Dillingham TR, et al. Evaluation of persons with suspected lumbosacral and cervical radiculopathy: electrodiagnostic assessment and implications for treatment and outcomes. Part I. Muscle Nerve. 2020 Oct;62(4):462-73. doi:10.1002/mus.26997.
3. DePalma MJ, et al. What is the source of chronic low back pain and does age play a role? Pain Med. 2011 Feb;12(2):224-33. doi:10.1111/j.1526-4637.2010.01045.x.
4. Manchikanti L, et al. Evaluation of the relative contributions of various structures in chronic low back pain. Pain Physician. 2001 Oct;4(4):308-16. Erratum in: Pain Physician. 2002 Jan;5(1):114.
5. Dumitru D, Zwarts MJ. Radiculopathies. In: Dumitru D, et al. Electrodiagnostic medicine. 2nd ed. Philadelphia: Hanley & Belfus; 2002. p. 713-776.
6. Jerath N, Kimura J. F wave, A wave, H reflex, and blink reflex. Handb Clin Neurol. 2019;160:225-39. doi:10.1016/B978-0-444-64032-1.00015-1.
7. Preston DC, Shapiro BE. Radiculopathy. In: Electromyography and neuromuscular disorders: clinical-electrophysiologic-ultrasound correlations. 4th ed. Philadelphia: Elsevier; 2021. p. 557-576.
8. Dillingham TR. Evaluating the patient with suspected radiculopathy. PM R. 2013 May;5(5 Suppl):S41-9. doi:10.1016/j.pmrj.2013.03.015.
9. Gupta R, et al. Human motor endplate remodeling after traumatic nerve injury. J Neurosurg. 2020 Sep 18;135(1):220-7. doi:10.3171/2020.8.JNS201461.
10. Park JH, et al. Electrodiagnostic characteristics of upper lumbar stenosis: discrepancy between neurological and structural levels. Muscle Nerve. 2020 May;61(5):580-6. doi:10.1002/mus.26844.
11. Boogaarts HD, Bartels RH. Prevalence of cervical spondylotic myelopathy. Eur Spine J. 2015 Apr;24 Suppl 2:139-41. doi:10.1007/s00586-013-2781-x.
12. Woods BI, Hilibrand AS. Cervical radiculopathy: epidemiology, etiology, diagnosis, and treatment. J Spinal Disord Tech. 2015 Jun;28(5):E251-9. doi:10.1097/BSD.0000000000000284.
13. Cavazos DR, et al. Neuroforaminal stenosis in the lumbosacral spine: a scoping review of pathophysiology, clinical manifestations, diagnostic imaging, and treatment. Spartan Med Res J. 2023 Dec 5;8(1):87848. doi:10.51894/001c.87848.
14. Court C, et al. Thoracic disc herniation: surgical treatment. Orthop Traumatol Surg Res. 2018 Feb;104(1 Suppl):S31-S40. doi:10.1016/j.otsr.2017.04.022.
15. Frey SE, Riggs JE. Diabetic truncal neuropathy—clinical and radiological image. Diabetes Care. 2021 Sep 21:dc211235. doi:10.2337/dc21-1235.
16. Saal JA, Firtch W, Saal JS, Herzog RJ. The value of somatosensory evoked potential testing for upper lumbar radiculopathy: a correlation of electrophysiologic and anatomic data. Spine (Phila Pa 1976). 1992 Jun;17(6 Suppl):S133-7. doi:10.1097/00007632-199206001-00012.
17. Kimura J. Somatosensory evoked potential. In: Electrodiagnosis in diseases of nerve and muscle: principles and practice. 4th ed. New York: Oxford; 2013. p. 477-510.
18. Chiou-Tan FY. Musculoskeletal mimics of cervical radiculopathy. Muscle Nerve. 2022 Jul;66(1):6-14. doi:10.1002/mus.27553.
19. Smith CC, Bevelaqua AC. Challenging pain syndromes: Parsonage-Turner syndrome. Phys Med Rehabil Clin N Am. 2014 May;25(2):265-77. doi:10.1016/j.pmr.2014.01.001.
20. Upton AR, McComas AJ. The double crush in nerve entrapment syndromes. Lancet. 1973 Aug 18;2(7825):359-62. doi:10.1016/S0140-6736(73)93196-6.
21. Gullborg EJ, et al. Surgical management of double crush syndrome: outcomes of cervical decompression with and without peripheral nerve release. J Hand Surg Glob Online. 2025 Jun 19;7(5):100770. doi:10.1016/j.jhsg.2025.100770.
22. Xiong C, et al. Dynamic evaluation of the cervical spine and the spinal cord of symptomatic patients using a kinetic magnetic resonance imaging technique. Clin Spine Surg. 2017 Oct;30(8):E1149-E1155. doi:10.1097/BSD.0000000000000429.
23. Ferreira RJR, et al. Cervical spinal surgery. In: Verst S, et al. Intraoperative monitoring neurophysiology and surgical approaches. Springer; 2022. p. 513-538.
24. Siebner HR, et al. Transcranial magnetic stimulation of the brain: what is stimulated? A consensus and critical position paper. Clin Neurophysiol. 2022 Aug;140:59-97. doi:10.1016/j.clinph.2022.04.022.
25. Izenberg A. Amyotrophic lateral sclerosis and other motor neuron diseases. Continuum (Minneap Minn). 2023 Oct 1;29(5):1538-63. doi:10.1212/CON.0000000000001345.
26. Torrieri MC, et al. Comorbidity of cervical spondylogenic myelopathy and amyotrophic lateral sclerosis: when electromyography makes the difference in diagnosis. Eur Neurol. 2020;83(6):626-9. doi:10.1159/000512269.
27. Glenn MD, Jabari D. Diabetic lumbosacral radiculoplexus neuropathy—diabetic amyotrophy. Neurol Clin. 2020 Aug;38(3):553-64. doi:10.1016/j.ncl.2020.03.010.
28. Jorgensen SP, Chiodo AE. Musculoskeletal mimics for lumbosacral radiculopathy. Part 2: specific disorders. Muscle Nerve. 2025 Jan;71(1):22-8. doi:10.1002/mus.28279.
29. Miller TA, Ross DC. Sciatic and tibial neuropathies. Handb Clin Neurol. 2024;201:165-81. doi:10.1016/B978-0-323-90108-6.00003-X.
30. Peselzon O, Colditz M, Maclachlan LR. L5 mononeuritis, an uncommon cause of foot drop: illustrative case. J Neurosurg Case Lessons. 2023 Jan 30;5(5):CASE22499. doi:10.3171/CASE22499.
Episódio 06 – Escoliose de Início Precoce
Estreia Agendada
Pré-Estreia Exclusiva • Quarta-feira, 07 de Outubro às 21h00
Quarta-feira, 07 de Outubro às 21h00
O contador regressivo ao vivo será ativado na véspera da estreia.

O videocast completo será liberado automaticamente neste player na quarta-feira (07/10) a partir das 18h00.

Disponível no Spotify no dia da estreia
Tratado em Debate

Videocast oficial derivado dos capítulos do tratado.

Episódio 06 – Escoliose de Início Precoce

Pulmão e Coluna em Crescimento: desenvolvimento torácico, classificação C-EOS e técnicas cirúrgicas que preservam o crescimento