InícioO TratadoCapítulosCapítulo 87
Tratado de Cirurgia da Coluna Vertebral
SEÇÃO 8Técnicas Cirúrgicas
Capítulo87

Técnicas de Correção Cirúrgica das Deformidades da Coluna Vertebral

A leitura completa deste capítulo está disponível exclusivamente na edição impressa do Tratado.
Seção 8Técnicas Cirúrgicas
Cap. 87Capítulo Clínico
1autores
Português
Español
English
Referênciascientíficas
📑

Resumo do capítulo

Contexto: A correção cirúrgica das deformidades da coluna vertebral evoluiu significativamente, migrando de conceitos puramente mecanicistas baseados na distração para uma abordagem tridimensional complexa. O procedimento de correção representa um dos momentos mais críticos do ato operatório. Durante a aplicação das manobras corretivas, a manipulação das estruturas ósseas e o estiramento da medula espinhal impõem um risco real e grave de lesões neurológicas permanentes. Além das potenciais complicações neuromusculares, o cirurgião enfrenta o desafio constante de selecionar a estratégia técnica mais adequada para cada paciente diante de um arsenal diversificado de implantes e instrumentais. O planejamento inadequado da correção pode resultar no insucesso do controle tridimensional da curva, em falhas de fixação como o soltamento dos implantes, e em desfechos estéticos e funcionais insatisfatórios. Diante disso, o domínio abrangente das técnicas de correção e a implementação rigorosa de protocolos de segurança interprofissionais tornam-se indispensáveis.
Objetivo do capítulo: Este capítulo capacita o leitor a reconhecer e dominar as principais técnicas operatórias para correção das deformidades espinhais, compreendendo suas indicações, particularidades e limitações biomecânicas. Ao final da leitura, o profissional estará apto a selecionar e individualizar a melhor estratégia cirúrgica, manejar situações de intercorrências neurofisiológicas intraoperatórias e executar com segurança manobras corretivas e de posicionamento.
Visão Geral e FundamentosEvolução Histórica e Implantes O tratamento cirúrgico das deformidades iniciou-se em relatos históricos e passou pelas hastes de Harrington na década de 1970 (focadas em distração), pela fixação segmentar com fios sublaminares de Luque na década de 1980 e pelos sistemas de ganchos e construções híbridas de Cotrel-Dubousset. A introdução dos parafusos pediculares torácicos por Suk na década de 1990 revolucionou a correção tridimensional. Atualmente, o arsenal engloba ganchos, amarrilhas sublaminares e parafusos pediculares. Indicações, Limitações e Monitorização Neurofisiológica As manobras corretivas são indicadas em escolioses, cifoses e cifoescolioses. As limitações técnicas envolvem a densidade dos implantes, a possibilidade de soltamento dos pontos de fixação (pull-out) e a perda de sinal neurofisiológico. A monitorização neurofisiológica intraoperatória é obrigatória. Diante da queda dos potenciais evocados, o protocolo exige: Checagem técnica do sistema; Suspensão de anestésicos inalatórios e bloqueadores neuromusculares; Otimização da pressão arterial média e administração de corticoide endovenoso; Irrigação do campo cirúrgico com solução morna; Reversão imediata da última manobra cirúrgica realizada. Planejamento e Posicionamento Cirúrgico O paciente é posicionado em decúbito ventral sobre coxins no tórax e na bacia, mantendo o abdome livre e prevenindo a compressão ocular, genital e de extremidades. A mesa e a radioscopia devem ser compatíveis, assim como o tampo da mesa em caso de uso de neuronavegação. O instrumental deve incluir parafusos monoaxiais ou uniplanares, moldadores de haste, compressores, distradores e torres para derrotação vertebral direta (sequencial ou em bloco). O planejamento deve correlacionar exames de imagem e exame físico, atentando-se para assimetrias como a altura dos ombros.
Passo a Passo Técnico da CorreçãoFixação e Hastes: Recomenda-se parafusos monoaxiais ou uniplanares em níveis apicais, neutros e extremos. Moldam-se as hastes de forma assimétrica para reduzir a gibosidade torácica: hipercifose na concavidade e hipocifose na convexidade. Conectores transversais não são necessários em construções exclusivas com parafusos e ganchos. Ancoragem Distal e Translação: A haste da concavidade é fixada no ponto distal e transladada progressivamente com torres de redução, distribuindo o estresse entre os pontos de fixação. A haste da convexidade é posicionada em seguida. Ajuste Distal e Derrotação: Ajusta-se o nível distal para garantir neutralidade rotacional e paralelismo em relação ao solo por meio de derrotação direta, compressão e distração antes do aperto definitivo. Derrotação Apical e Finalização: Utiliza-se a vértebra neutra como ancoragem enquanto se aplica derrotação direta nos níveis apicais (com auxílio de assistente fixando a região neutra), combinada à distração na concavidade e compressão na convexidade. Após confirmação por imagem e correções adicionais (in situ), realiza-se o bloqueio final. Ressecção de Costela: A costoplastia pode ser associada para redução da giba torácica. Inovações A etapa de correção ainda depende fundamentalmente da experiência do cirurgião, visto que a robótica e a navegação assistida possuem contribuição limitada nessa fase específica do procedimento.
Aplicação clínica: A aplicação prática dos conceitos deste capítulo orienta todas as fases do manuseio do paciente com deformidade espinhal. No pré-operatório, correlacionam-se os exames de imagem com o exame físico para evitar dissimetrias estéticas no pós-operatório, como o desequilíbrio de ombros. No posicionamento, a correta disposição dos coxins e a proteção de proeminências, olhos e genitália previnem complicações graves associadas ao decúbito ventral. Durante a execução cirúrgica, o uso de parafusos monoaxiais ou uniplanares em pontos-chave possibilita a aplicação eficaz de manobras de derrotação vertebral direta e translação. A distribuição gradual das forças de redução entre os implantes evita a falha da interface osso-implante (pull-out). Na ocorrência de alertas na monitorização neurofisiológica, o cirurgião deve liderar a execução sequencial do protocolo de resgate em sintonia com anestesista e neurofisiologista, restaurando a hemodinâmica e revertendo a manobra corretiva quando necessário para prevenir déficits neurológicos.
🏷️

Palavras-chave

Descritores DeCS/MeSH preferenciais:
EscolioseCifoseDeformidades da Coluna VertebralProcedimentos Cirúrgicos OperatóriosFused de VértebrasMonitorização IntraoperatóriaTermos MeSH:ScoliosisKyphosisSpinal DeformitiesSurgical Procedures, OperativeSpinal FusionIntraoperative Monitoring

Por que este capítulo importa

As manobras de correção de deformidades espinhais representam o ápice técnico e o momento de maior vulnerabilidade neurológica na cirurgia de coluna. Dominar a mecânica dos implantes, a sequência das manobras de derrotação e o planejamento assimétrico das hastes reduz drasticamente a taxa de falhas mecânicas e desequilíbrios estéticos pós-operatórios. Mais do que habilidade motora, este capítulo estabelece as diretrizes de segurança essenciais para proteger a medula espinhal e coordenar a equipe multidisciplinar diante de intercorrências intraoperatórias graves.

O sucesso no tratamento cirúrgico das deformidades da coluna vertebral exige uma longa curva de aprendizado e o domínio individualizado de técnicas de translação, derrotação e compressão-distração. O alinhamento rigoroso entre a equipe cirúrgica, anestésica e de neurofisiologia, associado ao cumprimento estrito de protocolos de emergência neurofisiológica, é indispensável para alcançar a correção tridimensional adequada com a máxima segurança do paciente.

Destaques do capítulo

🌐
Card 1 — Conceito essencial Moldagem assimétrica e redução gradual A redução da gibosidade torácica é favorecida pela moldagem assimétrica das hastes longitudinais, utilizando hipercifose na concavidade e hipocifose na convexidade. O estresse biomecânico deve ser distribuído sequencial e gradualmente entre as torres de redução para prevenir a soltura dos implantes (pull-out).

🩺
Card 2 — Decisão clínica Ancoragem e derrotação distal neutra A correção deve ser iniciada pelo nível mais distal, preferencialmente fixado com parafusos monoaxiais ou uniplanares. Manobras de derrotação direta associadas à compressão ou distração devem ser executadas até obter uma vértebra distal rotacionalmente neutra e paralela ao solo antes do bloqueio definitivo.

📐
Card 3 — Pérola ou alerta Conduta na perda de potencial Diante da queda dos potenciais evocados, a equipe deve checar o sistema, otimizar a pressão arterial, suspender inalatórios/bloqueadores, administrar corticoide endovenoso, irrigar o campo com solução morna e reverter imediatamente a última manobra cirúrgica realizada.

📚

Referências bibliográficas

1. Yağcı G. A Historical Perspective of the Management of Scoliosis. Erciyes Med J. 2022;44(4):439-46.
2. Schultz AB, Hirsch C. Mechanical analysis of Harrington rod correction of idiopathic scoliosis. J Bone Joint Surg Am. 1973;55(5):983-92.
3. Luque ER. The anatomic basis and development of segmental spinal instrumentation. Spine (Phila Pa 1976). 1982;7(3):256-9.
4. Wenger DR, Carollo JJ, Wilkerson JAJ, Wauters K, Herring JA. Laboratory testing of segmental spinal instrumentation versus traditional Harrington instrumentation for scoliosis treatment. Spine (Phila Pa 1976). 1982;7(3):265-9.
5. Wenger DR, Carollo JJ, Wilkerson JAJ. Biomechanics of scoliosis correction by segmental spinal instrumentation. Spine (Phila Pa 1976). 1982;7(3):260-4.
6. Richards BS, Johnston CE 2nd. Cotrel-Dubousset instrumentation for adolescent idiopathic scoliosis. Orthopedics. 1987;10(4):649-54.
7. Gioia G, Dubousset J, M'Rabet A. Treatment of adolescent scoliosis by the Cotrel-Dubousset method. Ital J Orthop Traumatol. 1987;13(4):509-16.
8. Guidera KJ, Hooten J, Weatherly W, Highhouse M, Castellvi A, Ogden JA, et al. Cotrel-Dubousset instrumentation. Results in 52 patients. Spine (Phila Pa 1976). 1993;18(4):427-31.
9. Suk SI, Lee CK, Kim WJ, Chung YJ, Park YB. Segmental pedicle screw fixation in the treatment of thoracic idiopathic scoliosis. Spine (Phila Pa 1976). 1995;20(12):1399-405.
10. Hemmer S, Falkenhayn M Von, Trefzer R, Baumann L, Pepke W. Evaluation of deformity correction and complications using sublaminar band anchoring in the primary curve of patients with adolescent idiopathic scoliosis. BMC Musculoskelet Disord. 2025;26(1):651.
11. Diab M, Smith AR, Kuklo TR. Neural complications in the surgical treatment of adolescent idiopathic scoliosis. Spine (Phila Pa 1976). 2007;32(24):2759-63.
12. Rutges JPHJ, Renkens JJM, Kempen DHR, Faber C, Stadhouder A, Kruyt MC, et al. The risk of delayed spinal cord injury in pediatric spinal deformity surgery. Spine Deform. 2023;11(3):617-25.
13. Dormans JP. Establishing a standard of care for neuromonitoring during spinal deformity surgery. Spine (Phila Pa 1976). 2010;35(25):2180-5.
14. Librianto D, Saleh I, Fachrisal, Utami WS, Hutami WD. Rod derotation and translation techniques provide comparable functional outcomes for surgical correction of adolescent idiopathic scoliosis - A retrospective, cross-sectional study. Ann Med Surg (Lond). 2022;73:103188.
15. Le Navéaux F, Larson AN, Labelle H, Aubin CE. Significant variability in surgeons' preferred correction maneuvers and instrumentation strategies when planning adolescent idiopathic scoliosis surgery. Scoliosis Spinal Disord. 2018;13(1):1-9.
16. Sielatycki JA, Cerpa M, Baum G, Pham M, Thuet E, Lehman RA, et al. A novel MRI-based classification of spinal cord shape and CSF presence at the curve apex to assess risk of intraoperative neuromonitoring data loss with thoracic spinal deformity correction. Spine Deform. 2020;8(4):655-61.
17. Al-Naseem AO, Al-Naseem AO, Cawley DT, Aoude A, Catanzano AA, Abd-El-Barr MM, et al. Does Spinal Cord Type Predict Intraoperative Neuro-Monitoring Alerts in Scoliosis Correction Surgery? A Systematic Review and Meta-Analysis of Operative and Radiologic Predictors. Global Spine J. 2024;14(7):2170-82.
18. Glover CD, Carling NP. Neuromonitoring for Scoliosis Surgery. Anesthesiol Clin. 2014;32(1):101-14.
19. Yang J, Skaggs DL, Chan P, Shah SA, Vitale MG, Neiss G, et al. Raising Mean Arterial Pressure Alone Restores 20% of Intraoperative Neuromonitoring Losses. Spine (Phila Pa 1976). 2018;43(13):890-4.
20. Sethi R, Bohl M, Vitale M. State-of-the-Art Reviews: Safety in Complex Spine Surgery. Spine Deform. 2019;7(5):657-68.
21. Bivona LJ, France J, Daly-Seiler CS, Burton DC, Dolan LA, Seale JJ, et al. Spinal deformity surgery is accompanied by serious complications: report from the Morbidity and Mortality Database of the Scoliosis Research Society from 2013 to 2020. Spine Deform. 2022;10(6):1307-13.
22. Lee SM, Suk SI, Chung ER. Direct Vertebral Rotation: A New Technique of Three-Dimensional Deformity Correction with Segmental Pedicle Screw Fixation in Adolescent Idiopathic Scoliosis. Spine (Phila Pa 1976). 2004;29(3):343-9.
23. Hwang SW, Samdani AF, Cahill PJ. The impact of segmental and en bloc derotation maneuvers on scoliosis correction and rib prominence in adolescent idiopathic scoliosis: Clinical article. J Neurosurg Spine. 2012;16(4):345-50.
24. Kuklo TR, Lenke LG, Graham EJ, Won DS, Sweet FA, Blanke KM, et al. Correlation of radiographic, clinical, and patient assessment of shoulder balance following fusion Versus nonfusion of the proximal thoracic curve in adolescent idiopathic scoliosis. Spine (Phila Pa 1976). 2002;27(18):2013-20.
25. Di Silvestre M, Lolli F, Bakaloudis G, Maredi E, Vommaro F, Pastorelli F. Apical vertebral derotation in the posterior treatment of adolescent idiopathic scoliosis: Myth or reality? Eur Spine J. 2013;22(2):313-23.
26. Faldini C, Perna F, Geraci G, Pardo F, Mazzotti A, Pilla F, et al. Triplanar correction of adolescent idiopathic scoliosis by asymmetrically shaped and simultaneously applied rods associated with direct vertebral rotation: clinical and radiological analysis of 36 patients. Eur Spine J. 2018;27(1):165-74.
27. Sarwahi V, Eigo K, Rahman E, Li B, Koltenyuk V, Hasan S, et al. Posterior Spinal Fusion with Rib Resection Allows for Improved Deformity Correction as well as Patient Satisfaction. Spine (Phila Pa 1976). 2025 May 19. Online ahead of print.
28. Garg S, Niswander C, Pan Z, Erickson M. Cross-Links Do Not Improve Clinical or Radiographic Outcomes of Posterior Spinal Fusion With Pedicle Screws in Adolescent Idiopathic Scoliosis: A Multicenter Cohort Study. Spine Deform. 2015;3(4):338-44.
Videocast SBC
Assistir Videocast
Tratado em Debate

Videocast oficial derivado dos capítulos do tratado.

Episódio 1 – Capítulo 8: Coluna Vertebral no Plano Sagital

Discussão com os autores sobre os conceitos fundamentais do equilíbrio sagital, parâmetros radiográficos e sua importância no planejamento cirúrgico e nos resultados clínicos.

Assistir episódio