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Seção 4Deformidades da Coluna VertebralCapítulo 41 de 109

Deformidades da Coluna Cervical

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Capa 3D Tratado de Coluna

Resumo Clínico do Capítulo

Síntese acadêmica, metodologia diagnóstica e recomendações cirúrgicas
Contexto Clínico

As deformidades da coluna cervical (DCC) constituem um grupo heterogêneo de alterações nos planos sagital e coronal capazes de comprometer o alinhamento da cabeça, o olhar horizontal, a função neurológica e atividades cotidianas como marcha, alimentação, deglutição e higiene. Podem resultar de causas iatrogênicas, degenerativas, traumáticas, congênitas, neoplásicas, infecciosas ou inflamatórias e também refletir compensações de deformidades localizadas em outros segmentos da coluna. A região cervical apresenta desafios particulares pela elevada mobilidade, pela transição com a caixa torácica, pela proximidade da medula, raízes e artérias vertebrais e pela necessidade permanente de posicionar a cabeça sobre a pelve. Por isso, uma deformidade cervical não deve ser interpretada apenas por seu ângulo local. Etiologia, flexibilidade, alinhamento espinopélvico, origem da deformidade, situação neurológica e repercussão funcional precisam ser analisados conjuntamente antes de definir observação, tratamento conservador ou reconstrução cirúrgica.

Objetivo do Capítulo

Apresentar os fundamentos anatômicos, biomecânicos, clínicos e radiográficos das deformidades cervicais. O leitor deverá reconhecer suas principais etiologias, interpretar os parâmetros de alinhamento cervical e global, distinguir deformidades flexíveis e rígidas, compreender os sistemas classificatórios, selecionar os exames necessários ao planejamento e conhecer os princípios que orientam abordagens anterior, posterior ou combinada, osteotomias e prevenção das principais complicações.

A coluna cervical dentro do alinhamento global

A principal função biomecânica da coluna cervical é manter a cabeça equilibrada sobre o tronco e preservar o olhar horizontal. Quando esse alinhamento se perde, aumenta a demanda muscular necessária para sustentar a cabeça. A lordose cervical também funciona como mecanismo adaptativo às alterações da cifose torácica, lordose lombar e posição da pelve. O capítulo utiliza parâmetros como T1 slope, lordose cervical, eixo vertical sagital cervical e chin-brow vertical angle (CBVA) para compreender essas relações. A deformidade cervical pode, portanto, ser primária ou representar compensação de uma alteração mais distal.

Etiologia modifica mecanismo e tratamento

A cifose pós-operatória é destacada como causa importante, particularmente após procedimentos que comprometem estruturas posteriores ou produzem reconstrução inadequada. Degeneração cervical, ossificação ligamentar, trauma, malformações congênitas, tumores, infecções e doenças inflamatórias também podem produzir deformidade. A Figura 41.1 demonstra uma deformidade rígida queixo-peito na espondilite anquilosante. Já as Figuras 41.5 a 41.7exemplificam que o componente coronal possui etiologias próprias, incluindo síndrome de Grisel, torcicolo e hemivértebras cervicais.

Medula e artéria vertebral condicionam segurança

A cifose progressiva pode produzir mielopatia não apenas por compressão direta, mas também pelo aumento da tensão longitudinal da medula, conceito de stretching myelopathy discutido no capítulo e ilustrado na Figura 41.3. A anatomia da artéria vertebral assume importância semelhante. Variações do seu trajeto podem modificar a segurança de fixações e osteotomias. A Figura 41.2 demonstra uma variante anatômica identificada por angiotomografia, reforçando o papel do estudo vascular nas reconstruções complexas.

Classificar morfologia, origem e rigidez

O capítulo apresenta sistemas que procuram organizar a deformidade segundo padrão predominante, origem cervicotorácica, componente coronal e rigidez. A Tabela 41.1 resume diferentes morfotipos, enquanto classificações mais recentes incorporam flexibilidade e compensação global. Radiografias panorâmicas em ortostase avaliam o conjunto da coluna; estudos dinâmicos determinam flexibilidade; tomografia computadorizada (TC) caracteriza osso, anquilose e instrumentação; ressonância magnética (RM) avalia medula e estruturas neurais; e angiotomografia é utilizada quando o conhecimento da anatomia vascular é relevante.

Tratamento proporcional à deformidade

Deformidades leves ou flexíveis podem admitir tratamento conservador ou reconstruções menos extensas. Nas deformidades rígidas, o tratamento depende do local da compressão, do ápice, da origem do desalinhamento e da presença de anquilose. O capítulo organiza as osteotomias em graus crescentes de poder corretivo, desde liberações articulares até ressecções vertebrais. As Figuras 41.8 a 41.10 mostram exemplos de reconstrução de cifose pós-laminectomia, osteotomias anteriores e osteotomia de três colunas. O princípio central é empregar a menor intervenção capaz de restaurar alinhamento funcional e estabilidade com segurança neurológica.

Aplicação Clínica & Diretrizes

Na prática, a deformidade cervical deve ser examinada com o paciente em posição funcional. É necessário avaliar orientação da cabeça, olhar horizontal, mobilidade, marcha, deglutição, respiração e sinais de radiculopatia ou mielopatia. O exame neurológico deve procurar sinais de comprometimento medular, enquanto a avaliação clínica da rigidez ajuda a antecipar a complexidade da reconstrução. A investigação radiográfica não deve se restringir ao pescoço. Uma deformidade aparentemente cervical pode representar compensação de alteração torácica ou toracolombar; por isso, o capítulo valoriza radiografias panorâmicas em ortostase. T1 slope, CBVA e alinhamento sagital cervical auxiliam a compreender origem e repercussão da deformidade, sem substituir a situação funcional do paciente. TC e RM respondem a perguntas diferentes. A primeira esclarece anatomia óssea, anquilose, artrodese prévia e corredores de instrumentação; a segunda avalia medula, compressão neural e estruturas discais. Em procedimentos próximos à artéria vertebral, o estudo vascular deve integrar o planejamento. Na indicação cirúrgica, flexibilidade é decisiva. Deformidades móveis podem permitir abordagens menos agressivas, enquanto anquilose e deformidades multiplanares podem exigir osteotomias e reconstruções combinadas. O objetivo não é obter lordose máxima, mas restabelecer olhar horizontal, equilíbrio e função sem produzir sobrecorreção ou descompensação de outros segmentos.

Descritores Científicos DeCS / MeSH

Vértebras CervicaisCervical VertebraeCurvaturas da Coluna VertebralSpinal CurvaturesCifoseKyphosisEscolioseScoliosisTorcicoloTorticollisOsteotomiaOsteotomyFusão VertebralSpinal FusionAs formas Vértebras Cervicais / Cervical Vertebrae e Curvaturas da Coluna Vertebral / Spinal Curvatures estão registradas no DeCS/MeSH oficial. (DeCS) Cifose / Kyphosis, Escoliose / Scoliosis e Torcicolo / Torticollis também são descritores controlados. (DeCS) Osteotomia / Osteotomy e Fusão Vertebral / Spinal Fusion foram igualmente confirmados no DeCS. (DeCS)

Por que este capítulo importa

Uma cifose cervical pode ser consequência de uma cirurgia prévia, de degeneração, de doença inflamatória ou simplesmente representar uma tentativa da coluna cervical de compensar uma deformidade localizada mais distalmente. Corrigir o pescoço sem reconhecer essa origem pode criar novo desequilíbrio. O capítulo mostra como conectar exame clínico, neurologia, flexibilidade, parâmetros radiográficos e anatomia vascular antes de escolher a técnica. Essa visão é especialmente importante porque as reconstruções cervicais complexas convivem com estruturas de alta vulnerabilidade e apresentam risco significativo de complicações quando o planejamento é inadequado.

A deformidade cervical deve ser compreendida como parte do equilíbrio global da coluna e da função da cabeça, e não como uma alteração angular isolada. Etiologia, origem da deformidade, flexibilidade, situação neurológica, anatomia vascular e compensações espinopélvicas definem o planejamento. O tratamento deve ser proporcional à rigidez e à repercussão clínica, utilizando desde medidas conservadoras até osteotomias complexas com o objetivo de restaurar olhar horizontal, estabilidade e função com segurança.
Card 1 — Conceito essencial

O pescoço compensa a coluna

A lordose cervical adapta-se ao alinhamento dos segmentos torácico e lombar para manter a cabeça sobre a pelve e preservar o olhar horizontal. Uma alteração observada no pescoço pode, portanto, ser a manifestação local de um problema situado mais distalmente.

Card 2 — Decisão clínica

Localize a origem primeiro

Antes de escolher uma abordagem ou osteotomia, determine onde a deformidade realmente se origina e se ela é flexível ou rígida. Tratar uma deformidade torácica alta como se fosse exclusivamente cervical pode produzir correção incompleta ou novo desequilíbrio global.

Card 3 — Pérola ou alerta

Conheça a artéria vertebral

Variações da artéria vertebral podem modificar trajetos de parafusos, osteotomias e ressecções cervicais. Nas reconstruções complexas, especialmente próximas à junção craniocervical, conhecer previamente essa anatomia é parte do planejamento de segurança e não apenas um detalhe técnico intraoperatório.

Referências Bibliográficas Selecionadas

Literatura de alto impacto indexada no PubMed / DOI
44 Referências
1.Štulík J, Nesnídal P, Šebesta P, Vyskočil T, Kryl J. Kyphotic deformities of the cervical spine. Acta Chir Orthop Traumatol Cech. 2011;78(3):215-24.
2.Tan LA, Riew KD, Traynelis VC. Cervical spine deformity – Part 1: biomechanics, radiographic parameters, and classification. Neurosurgery. 2017;81(2):197-203.
3.Nottmeier EW, Deen HG, Patel N, Birch B. Cervical kyphotic deformity correction using 360-degree reconstruction. J Spinal Disord Tech. 2009;22(6):385-91.
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Episódio 1 – Capítulo 8: Coluna Vertebral no Plano Sagital

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