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Seção 8Tratado de Cirurgia da Coluna VertebralCapítulo 75 de 109

Técnicas de Fixação Cervical Anterior

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Capa 3D Tratado de Coluna

Resumo Clínico do Capítulo

Síntese acadêmica, metodologia diagnóstica e recomendações cirúrgicas
Contexto Clínico

As técnicas de fixação cervical anterior evoluíram significativamente desde a década de 1950, com o estabelecimento do acesso anterior por Smith, Robinson, Cloward, Dereymaeker e Mulier. O avanço da instrumentação — desde as placas bicorticais rígidas de Orozco e Llovet, as placas trapezoidais de Caspar, os parafusos unicorticais bloqueados de Morscher até as placas dinâmicas atuais — otimizou a estabilização e a fusão intersomática na coluna subaxial. A abordagem anterior oferece acesso direto às lesões compressivas anteriores, com menor tempo cirúrgico, menor perda sanguínea, internações mais curtas e menor taxa global de complicações quando comparada às vias posteriores. Contudo, a seleção adequada entre placas e espaçadores intersomáticos isolados (cages stand-alone), o manejo de deformidades ou instabilidades biomecânicas graves e a prevenção de intercorrências específicas da via anterior — como disfagia, disfonia por lesão do nervo laríngeo recorrente, edema de vias aéreas e paralisia de C5 — permanecem desafios cruciais na prática cirúrgica.

Objetivo do Capítulo

Este capítulo visa capacitar o leitor a compreender e executar detalhadamente as técnicas de fixação cervical anterior subaxial. Ao final do estudo, o profissional deverá dominar a anatomia topográfica do acesso de Smith-Robinson, identificar as indicações e contraindicações da via anterior isolada frente às abordagens combinadas, selecionar adequadamente os implantes (placas versus cages stand-alone) e aplicar estratégias preventivas e terapêuticas para as principais complicações perioperatórias.

Visão Geral e Fundamentos

Histórico e Princípios Biomecânicos A evolução dos sistemas de fixação anterior transitou de placas rígidas bicorticais para sistemas de bloqueio unicortical e placas dinâmicas com parafusos de ângulo variável, que favorecem o compartilhamento de carga. A adição da placa proporciona estabilização imediata, previne a extrusão do enxerto, mantém o alinhamento sagital e reduz a necessidade de imobilização externa. Em contrapartida, o uso de espaçadores intersomáticos isolados (stand-alone), com ou sem parafusos integrados, apresenta taxas de fusão e resultados clínicos comparáveis aos da placa em discectomias de 1 ou 2 níveis na ausência de fatores de risco para não fusão (como tabagismo ou osteoporose), reduzindo tempo cirúrgico, sangramento, disfagia e ossificação adjacente. Em procedimentos com mais de 3 níveis, a associação de cage stand-alone no nível mais cranial com placa nos demais reduz complicações da placa extensa, devendo-se evitar o cage isolado em níveis caudais devido ao risco de pseudoartrose. Indicações, Contraindicações e Técnica Cirúrgica A via anterior é indicada no tratamento de fraturas, luxações, instabilidade, mielopatia cervical e espondilose avançada. A principal limitação ocorre em lesões por flexão-distração no segmento subaxial caudal com comprometimento capsular e ligamentar posterior, nas quais a via anterior isolada possui menor estabilidade, sendo indicada a complementação posterior. O procedimento exige avaliação pré-operatória criteriosa e monitorização neurofisiológica intraoperatória (MNIO) durante o posicionamento e etapas críticas. O paciente é posicionado com coxins sob as escápulas para restauração da lordose, cabeça neutra e tubo endotraqueal contralateral ao acesso. A incisão Smith-Robinson (transversa de 3 a 5 cm para 2-3 discos) é seguida da secção do platisma e dissecção digital entre o esternocleidomastóideo/bainha carotídea (lateralmente) e esôfago/traqueia (medialmente). A marcação do nível deve ser feita no corpo vertebral com pino do distrator de Caspar, evitando perfurar discos assintomáticos. Após descompressão do canal, ressecção do ligamento longitudinal posterior (LLP) e visualização da dura-máter sob microscopia, realiza-se a fusão. Em corpectomias por fraturas ou compressão posterior ao corpo, a reconstrução é feita com enxerto tricortical ou gaiolas de titânio ou poliéter-éter-cetona (PEEK). No entanto, discectomias múltiplas são preferíveis por demandarem menor tempo cirúrgico, menor sangramento e proporcionarem melhor alinhamento sagital. Para placas anteriores, recomenda-se manter distância mínima de 5 mm em relação aos discos adjacentes não operados para prevenir ossificação heterotópica. Resultados Clínicos, Complicações e Novas Perspectivas A discectomia cervical anterior com fusão (ACDF, do inglês anterior cervical discectomy and fusion) proporciona alívio rápido de cervicalgia, radiculopatia e déficits motores. As complicações incluem obstrução de vias aéreas por edema (1% a 14%), disfonia por paralisia do nervo laríngeo recorrente (0,6% a 2,9% em centros de referência; mitigada mantendo pressão do cuff do tubo endotraqueal até 20 mmHg), disfagia (até 71%), paralisia de C5 (5% a 10%), hematoma pós-operatório (5,6%) e perfuração esofágica (0,3%). Novas abordagens, como parafusos transpediculares anteriores, fixação axial transdiscal anterior e técnicas de redução anterior de luxações facetárias, buscam aumentar a rigidez biomecânica e evitar a via posterior suplementar.

Aplicação Clínica & Diretrizes

Na prática clínica, o conhecimento técnico detalhado orienta a seleção individualizada da estratégia cirúrgica na coluna cervical subaxial. Para pacientes sem fatores de risco com acometimento de 1 ou 2 níveis, a opção por cages stand-alone reduz a morbidade cirúrgica e o risco de disfagia sem comprometer as taxas de fusão. Em casos de deformidade em cifose, instabilidade, doença multissegmentar ou alto risco de subsidência, o emprego da placa anterior associada a cages garante o suporte biomecânico e a restauração do alinhamento sagital. A segurança do procedimento depende da rigorosa observância dos passos técnicos e do manejo preventivo de riscos. A utilização de MNIO desde o posicionamento inicial previne déficits iatrogênicos. Para minimizar a incidência de disfonia pós-operatória, o cirurgião deve monitorar a pressão do tubo endotraqueal (mantendo-a até 20 mmHg) e realizar deflação intermitente em cirurgias prolongadas. Na descompressão neural, o uso de pequenas curetas curvas auxilia no mapeamento do ligamento longitudinal posterior e do limite ósseo posterior, evitando lacerações durais. Diante de lesões altamente instáveis com disrupção do complexo ligamentar posterior, o cirurgião deve reconhecer a limitação do acesso anterior isolado e planejar a fixação posterior suplementar.

Descritores Científicos DeCS / MeSH

Região CervicalFusão VertebralDiscectomiaImplantes EspinhaisMielopatia CompressivaCervical VertebraeSpinal FusionDiskectomyProstheses and ImplantsSpinal Cord Compression

Por que este capítulo importa

A fixação cervical anterior representa uma técnica consagrada e eficaz para o tratamento de afecções degenerativas e traumáticas da coluna subaxial, oferecendo excelente descompressão e altas taxas de fusão. O sucesso cirúrgico baseia-se no domínio da anatomia do acesso Smith-Robinson, na seleção criteriosa do implante — reservando as placas para múltiplos níveis, instabilidade ou correção sagital, e cages stand-alone para casos selecionados — e na adoção de medidas rigorosas de proteção neurológica e de partes moles. Janela de destaque — Por que este capítulo importa As cirurgias cervicais anteriores estão entre os procedimentos mais executados na cirurgia da coluna, exigindo precisão milimétrica em um corredor anatômico denso em estruturas nobres, como a artéria carótida, o esôfago e o nervo laríngeo recorrente. Este capítulo é indispensável ao sintetizar a evolução biomecânica das fixações, fornecer parâmetros claros para a escolha entre placas e cages isolados e detalhar manobras intraoperatórias essenciais. A correta aplicação das recomendações técnicas previne complicações graves, como obstrução de vias aéreas, perfurações viscerais e paralisia de C5, otimizando os desfechos neurológicos e funcionais dos pacientes.
Card 1 — Conceito essencial

Título: Seleção do Implante Intersomático

Texto: Cages stand-alone apresentam resultados clínicos e de fusão semelhantes às placas em ACDF de 1 ou 2 níveis em pacientes sem fatores de risco. Essa opção reduz o tempo cirúrgico, o sangramento e a incidência de disfagia e ossificação do disco adjacente. O uso de placas permanece preferível para múltiplos níveis ou necessidade de correção de curva.

Card 2 — Decisão clínica

Título: Limitações da Via Anterior Isolada

Texto: Em lesões traumáticas por flexão-distração no segmento subaxial caudal com disrupção das cápsulas facetárias e ligamentos posteriores, a fixação anterior isolada apresenta menor estabilidade biomecânica. Nessas situações de grande instabilidade posterior, é recomendada a fixação complementar por via posterior para evitar a falha do material e o deslocamento dos implantes.

Card 3 — Pérola ou alerta

Título: Prevenção de Disfonia Pós-Operatória

Texto: A paralisia do nervo laríngeo recorrente associa-se ao tempo cirúrgico e à pressão exercida pelo tubo endotraqueal contra o retrator. Recomenda-se manter a insuflação do cuff do tubo em pressões de no máximo 20 mmHg, além de realizar sua deflação intermitente durante procedimentos cirúrgicos de longa duração.

Referências Bibliográficas Selecionadas

Literatura de alto impacto indexada no PubMed / DOI
39 Referências
1.Denaro V, Di Martino A. Cervical spine surgery: an historical perspective. Clin Orthop Relat Res. 2011;469(3):639-48. doi: 10.1007/s11999-010-1752-3. PMID: 21213087; PMCID: PMC3032865.
2.Bartels RHMA, Goffin J. Albert Dereymaeker and Joseph Cyriel Mulier's description of anterior cervical discectomy with fusion in 1955. J Neurosurg Spine. 2018; 28(4):395-400. doi: 10.3171/2017.7.SPINE17182. Epub 2018 Jan 12. PMID: 29327972.
3.Cheung KM, Mak KC, Luk KD. Anterior approach to cervical spine. Spine (Phila Pa 1976). 2012;37(5):E297-302. doi: 10.1097/BRS.0b013e318239ccd8. PMID: 22020587.
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Episódio 1 – Capítulo 8: Coluna Vertebral no Plano Sagital

Aprofunde-se no debate científico com os autores do capítulo discutindo casos práticos e condutas cirúrgicas.