InícioO TratadoCapítulosCapítulo 27
Tratado de Cirurgia da Coluna Vertebral
SEÇÃO 4Deformidades da Coluna Vertebral
Capítulo27

Introdução às Deformidades da Coluna Vertebral

A leitura completa deste capítulo está disponível exclusivamente na edição impressa do Tratado.
Seção 4Deformidades da Coluna Vertebral
Cap. 27Capítulo Clínico
2autores
Português
Español
English
Referênciascientíficas
📑

Resumo do capítulo

Contexto: As deformidades da coluna vertebral correspondem a alterações das curvas fisiológicas ou ao aparecimento de curvaturas anormais nos planos coronal, sagital e axial. Embora escoliose, cifose e lordose sejam frequentemente descritas separadamente, o capítulo enfatiza que as deformidades relevantes são tridimensionais e devem ser interpretadas pela interação entre forma vertebral, rotação, crescimento, alinhamento global e mecanismos compensatórios. Suas causas são diversas e incluem formas idiopáticas, congênitas, neuromusculares, associadas à neurofibromatose, doenças mesenquimais, trauma, infecção e tumores. Por isso, reconhecer uma deformidade é apenas o início do processo diagnóstico. História, exame físico, padrão da curva, presença de dor ou manifestações neurológicas, maturidade esquelética e estudo radiográfico precisam ser integrados para caracterizar sua etiologia e estimar comportamento futuro. O capítulo fornece a base conceitual e terminológica necessária para a avaliação das diferentes deformidades abordadas nas seções subsequentes do Tratado.
Objetivo do capítulo: Apresentar a linguagem fundamental das deformidades da coluna e organizar sua avaliação clínica e radiológica. O leitor deverá compreender a natureza tridimensional da escoliose, reconhecer alterações sagitais, identificar etiologias e padrões atípicos, diferenciar curvas estruturadas e não estruturadas, interpretar maturidade esquelética e potencial de progressão e utilizar terminologia padronizada para descrever localização, magnitude, flexibilidade, rotação, equilíbrio e relação espinopélvica.
Deformidade é um fenômeno tridimensionalO capítulo define as deformidades pela alteração das curvas normais da coluna ou pelo surgimento de curvas anormais. A escoliose não deve ser entendida simplesmente como uma curvatura lateral: quando existe rotação vertebral, a alteração envolve simultaneamente os planos coronal, sagital e axial. As Figuras 1 a 3 introduzem os planos anatômicos e a relação entre lordose, rotação e escoliose. No plano sagital, cifose e lordose fisiológicas podem apresentar aumento ou redução. O desenvolvimento dessas curvas ocorre progressivamente durante o crescimento, como sintetizado na Figura 4.
Etiologia e patogêneseO quadro de etiologias reúne deformidades idiopáticas, congênitas, neuromusculares, relacionadas à neurofibromatose e doenças mesenquimais, além das formas pós-traumáticas, pós-infecciosas e tumorais. Na escoliose idiopática, o capítulo discute o papel do bipedalismo, do alinhamento sagital e das forças de cisalhamento na produção da instabilidade rotacional. A Figura 5 representa conceitualmente essa relação. Nas deformidades cifóticas, perda do suporte anterior ou falha das estruturas posteriores podem alterar progressivamente o alinhamento.
Caracterização das curvasAs curvas são descritas segundo lado, localização, magnitude, etiologia, rotação e flexibilidade. A localização é determinada pela vértebra apical, enquanto as vértebras terminais delimitam a curva para mensuração. O método de Cobb permanece como referência para quantificação radiográfica, ilustrado na Figura 7, enquanto outros métodos históricos e alternativos são apresentados na Figura 8. O capítulo ressalta, entretanto, que qualquer mensuração bidimensional representa apenas uma projeção de uma deformidade tridimensional. Tecnologias de reconstrução tridimensional permitem avaliar parâmetros adicionais relacionados à rotação, forma vertebral e plano de máxima curvatura, conceitos apresentados nas Figuras 10 a 12.
Curvas estruturadas e não estruturadasA diferenciação depende principalmente da flexibilidade e da rotação. Curvas não estruturadas tendem a corrigir quando a causa extrínseca é removida ou quando o paciente é submetido a manobras de correção. Curvas estruturadas apresentam persistência da deformidade, rotação vertebral e, com a evolução, alterações ósseas e dos tecidos moles. A manobra de Adams, demonstrada na Figura 20, evidencia a rotação do tronco e auxilia nessa distinção.
Crescimento e risco de progressãoO potencial de crescimento é componente central da avaliação. Idade cronológica, desenvolvimento puberal, menarca e diferentes marcadores esqueléticos oferecem informações complementares. O capítulo apresenta Risser, cartilagem trirradiada, Sanders, Tanner e métodos baseados na mão, punho e olecrânio como instrumentos para estimar maturidade. O conceito fundamental é que a possibilidade de progressão não depende apenas do tamanho da curva, mas também de quanto crescimento ainda resta ao paciente.
Avaliação globalRadiografias em ortostase permitem analisar simultaneamente deformidade coronal, curvas sagitais, equilíbrio global e parâmetros pélvicos. Estudos de flexibilidade auxiliam a distinguir componentes móveis e rígidos. RM e outros exames complementares são reservados a situações em que padrão da curva, idade, dor, progressão, exame neurológico ou outros achados levantem suspeita de etiologia não idiopática.
Aplicação clínica: A avaliação deve começar pela premissa de que a deformidade é um sinal clínico e ainda não um diagnóstico etiológico. O primeiro passo é caracterizar quando a alteração apareceu, como evoluiu, se há dor, sintomas neurológicos, limitação funcional ou tratamentos prévios. A inspeção deve abranger tronco, pelve, membros inferiores e pele, procurando assimetrias, alterações do equilíbrio e sinais que sugiram doenças associadas. A manobra de Adams auxilia a reconhecer rotação e estruturação. Diferenças no comprimento dos membros, contraturas do quadril e fenômenos dolorosos podem produzir curvas secundárias que precisam ser diferenciadas de deformidades intrínsecas da coluna. Curvas de padrão incomum, progressão acelerada, dor relevante, alterações neurológicas ou determinados estigmas clínicos devem ampliar a investigação. Radiograficamente, não basta obter um ângulo. Devem ser caracterizados ápice, vértebras terminais, rotação, flexibilidade, equilíbrio coronal, perfil sagital e relação com a pelve. Nos pacientes em crescimento, a análise da maturidade esquelética acrescenta dimensão prognóstica à avaliação. A RM não é apresentada como exame rotineiro para toda escoliose, mas como ferramenta dirigida a situações em que o quadro clínico ou radiográfico sugere possível doença neural ou etiologia não idiopática. Essa sequência evita transformar uma deformidade visual em diagnóstico simplificado e cria uma base consistente para o planejamento terapêutico.
🏷️

Palavras-chave

Descritores DeCS/MeSH preferenciais:
Curvaturas da Coluna VertebralSpinal CurvaturesEscolioseScoliosisCifoseKyphosisLordoseLordosisRadiografiaRadiographyEstimativa da Idade pelo EsqueletoAge Determination by SkeletonDiagnóstico por ImagemDiagnostic Imaging

Por que este capítulo importa

Antes de decidir como tratar uma deformidade, é preciso saber exatamente o que está sendo observado. Duas curvas de aparência semelhante podem apresentar etiologias, flexibilidade, potencial de progressão e repercussões completamente diferentes. Este capítulo estabelece essa linguagem inicial: diferencia curva de deformidade tridimensional, estruturação de compensação, magnitude de equilíbrio e idade cronológica de maturidade esquelética. Ao organizar esses conceitos, reduz o risco de interpretar um ângulo isoladamente e cria a base necessária para compreender os capítulos específicos sobre escoliose, cifose e outras deformidades.

As deformidades da coluna devem ser compreendidas de forma tridimensional e avaliadas além da simples magnitude radiográfica. Etiologia, rotação, estruturação, flexibilidade, equilíbrio coronal e sagital, relação espinopélvica e potencial de crescimento são componentes de um mesmo raciocínio. A correta caracterização clínica e radiológica permite diferenciar curvas idiopáticas de manifestações de outras doenças e fornece a linguagem necessária para estimar progressão e planejar o tratamento.

Destaques do capítulo

🌐
Card 1 — Conceito essencial
Escoliose é tridimensional

A escoliose estruturada combina desvio coronal, rotação vertebral e alterações do perfil sagital. Interpretá-la apenas pela radiografia frontal reduz uma deformidade tridimensional a uma única projeção e deixa de representar componentes importantes de sua morfologia.

🩺
Card 2 — Decisão clínica
Primeiro descubra a etiologia

A deformidade observada no exame físico é um sinal, não o diagnóstico final. Padrão da curva, idade de início, velocidade de progressão, dor, exame neurológico e achados sistêmicos ajudam a diferenciar uma escoliose idiopática de manifestações congênitas, neuromusculares, tumorais, infecciosas ou outras causas.

📐
Card 3 — Pérola ou alerta
Crescimento muda o prognóstico

A magnitude atual da curva é apenas parte da avaliação. O potencial de crescimento modifica o risco de progressão e deve ser estimado por marcadores clínicos e esqueléticos. Interpretar uma deformidade sem considerar maturidade pode produzir uma percepção equivocada de estabilidade ou de risco futuro.

📚

Referências bibliográficas

1. As referências foram mantidas na mesma ordem e numeração apresentadas no capítulo. A apresentação foi uniformizada segundo o padrão Vancouver quando os elementos disponíveis permitiram, sem completar informações ausentes por suposição.
2. Dickson RA. Idiopathic scoliosis: foundation for physiological treatment. Ann R Coll Surg Engl. 1987;69(3):89-96.
3. Martins SCM, Mystro S, Veiga IG, Rosa AF, Lima MC, Tebet MA, Pasqualini W, Cavali PTM, Risso Neto MI. Epidemiological portrait of pediatric scoliosis in a tertiary hospital in Brazil. Coluna/Columna. 2023;22(3):e273410.
4. Lonstein JE, Carlson JM. The prediction of curve progression in untreated idiopathic scoliosis during growth. J Bone Joint Surg Am. 1984;66(7):1061-71.
5. Weinstein SL, Zavala DC, Ponseti IV. Idiopathic scoliosis: long-term follow-up and prognosis in untreated patients. J Bone Joint Surg Am. 1981;63(5):702-12.
6. Schlösser TB, Catelein R. The etiologic relevance of 3-D pathoanatomy of adolescent idiophatic scoliosis. Coluna/Columna. 2027;16(4):302-307.
7. Castelein RM, Pasha S, Cheng JC, Dubousset J. Idiopathic scoliosis as a rotatory decompensation of the spine. J Bone Miner Res. 2020;35(10):1850-1857. doi:10.1002/jbmr.4137.
8. Moliterno LA, Defino MP, Oliveira LF, Martins D, Silva VT, Azevedo GB, Araujo Junior AE, Perini JA. Sagittal misalignment in adolescent idiopathic scoliosis. Coluna/Columna. 2024;22:e280051.
9. Newton PO, Wenger DR. Idiopathic scoliosis. Lovell and Winter 1s Pediatric Orthopaedics. 2006.
10. Marks DS, Qaimkhani SA. The natural history of congenital scoliosis and kyphosis. Spine. 2009;34(17):1751-1755.
11. Zardo EA, Ziegler MS, Serdeira A, Severo CMD, Rech RV, Toffolo PR, Scalco L, Schwanke RC, Augustin CH. Applicability of the Cobb angle measurement in idiophatic scoliosis using scanned imaging. Coluna/Columna. 2017;16(1):22-24.
12. Mazzuia AR, Machado DR, Fukumothi DK, Nunes LF, Tucci Neto C, Jorge HM, Ortiz RT, Mattos CA. Iphone app use to Cobb angle in adolescent idiopathic scoliosis: does this apply? Coluna/Columna. 2015;14:101-4.
13. Godinho RR, Ueta RH, Curto DD, Martins DE, Wajchenberg M, Puertas EB. Mensuração da curva escoliótica pela técnica de Cobb intraobservadores e interobservadores e sua importância clínica. Coluna/Columna. 2011;10:216-20.
14. Vrtovec T, Pernuš F, Likar B. A review of methods for quantitative evaluation of spinal curvature. Eur Spine J. 2009;18:593-607.
15. Greenspan A, Pugh J, Norman A, Norman R. Scoliotic index: a comparative evaluation of methods for the measurement of scoliosis. B Hosp Jt Dis Ort. 1978;39:117-125.
16. Diab K, Sevastik J, Hedlund R, Suliman I. Accuracy and applicability of measurement of the scoliotic angle at the frontal plane by Cobb’s method, by Ferguson’s method and by a new method. Eur Spine J. 1995;4:291-295.
17. Chen YL, Chen WJ, Chiou WK. An alternative method for measuring scoliosis curvature. Orthopedics-New Jersey. 2007;30(10):828.
18. Newton PO, O’Brien MF, Shufflebarger HL, Betz RR, Dickson RA, Harms J, editors. Idiopatic scoliosis: the Harms Study Group Treatment guide. New York: Thieme; 2010.
19. Lechner R, Putzer D, Dammerer D, Liebensteiner M, Bach C, Thaler M. Comparison of two- and three-dimensional measurement of the Cobb angle in scoliosis. Int Orthop. 2017;41:957-62.
20. Nault ML, Mac-Thiong JM, Roy-Beaudry M, de Guise J, Labelle H, Parent S. Three-dimensional spine parameters can differentiate between progressive and nonprogressive patients with AIS at the initial visit: a retrospective analysis. J Pediatr Orthop. 2013;33(6):618-23.
21. DiMeglio A, Canavese F, Charles YP. Growth and adolescent idiopathic scoliosis: when and how much? J Pediatr Orthop. 2011;31(1 Suppl):S28-36. doi:10.1097/BPO.0b013e318202c25d. Erratum in: J Pediatr Orthop. 2011;31(2):221.
22. Diméglio A, Charles YP, Daures JP, de Rosa V, Kaboré B. Accuracy of the Sauvegrain method in determining skeletal age during puberty. J Bone Joint Surg Am. 2005;87(8):1689-96.
23. Sanders JO, Khoury JG, Kishan S, Browne RH, Mooney JF 3rd, Arnold KD, McConnell SJ, Bauman JA, Finegold DN. Predicting scoliosis progression from skeletal maturity: a simplified classification during adolescence. J Bone Joint Surg Am. 2008;90(3):540-53.
24. Sanders JO, Little DG, Richards BS. Prediction of the crankshaft phenomenon by peak height velocity. Spine. 1997;22(12):1352-6.
25. Tanner JM, Whhitehouse RH. Height Standart Chart. Castlemead: Creaseys; 1975.
26. Alshamrani K, Messina F, Offiah AC. Is the Greulich and Pyle atlas applicable to all ethnicities? A systematic review and meta-analysis. Eur Radiol. 2019;29:2910-2923.
27. Cheh G, Lenke LG, Lehman Jr RA, Kim YJ, Nunley R, Bridwell KH. The reliability of preoperative supine radiographs to predict the amount of curve flexibility in adolescent idiopathic scoliosis. Spine. 2007;32(24):2668-2672.
28. Garcia AS, Vieira FA, Kruppa JTP, Ueta RHS, Puertas EB. Comparison between radiographic methods of measuring flexibility in scoliosis. Coluna/Columna. 2021;20(2):84-88.
29. Howard JJ, Sees JP, Shrader MW. Management of spinal deformity in cerebral palsy. J Pediatr Orthop Soc North Am. 2019;1(1):8.
30. Rezende RM, Barbosa IC, Batista DMB, Rezende PR. Auxilio da tomografia computadorizada no planejamento pré-operatório de pacientes portadores de escoliose idiopática do adolescente. Coluna/Columna. 2010;9:85-89.
Videocast SBC
Assistir Videocast
Tratado em Debate

Videocast oficial derivado dos capítulos do tratado.

Episódio 1 – Capítulo 8: Coluna Vertebral no Plano Sagital

Discussão com os autores sobre os conceitos fundamentais do equilíbrio sagital, parâmetros radiográficos e sua importância no planejamento cirúrgico e nos resultados clínicos.

Assistir episódio