• Contexto: A endoscopia cervical posterior desenvolveu-se como alternativa às abordagens abertas e à discectomia cervical anterior com fusão em pacientes selecionados. Seu principal atrativo é realizar descompressão radicular ou, em situações específicas, do canal central preservando o movimento segmentar e reduzindo a agressão às partes moles. O acesso é particularmente aplicável a hérnias discais posterolaterais ou foraminais e à estenose foraminal sem instabilidade. Técnicas como a descompressão over-the-top ampliaram a possibilidade de descompressão bilateral por via unilateral, enquanto abordagens biportais aumentaram a liberdade instrumental. Entretanto, a proximidade da medula, raízes e artéria vertebral, somada ao campo cirúrgico restrito e à dependência de irrigação contínua, torna a técnica sensível a falhas de indicação e execução. Mielopatia grave, instabilidade, deformidades importantes e ossificações extensas permanecem cenários em que técnicas convencionais podem oferecer maior previsibilidade.
• Objetivo do capítulo: Capacitar o leitor a distinguir quando a abordagem endoscópica posterior é apropriada, planejar a técnica segundo localização e extensão da compressão e compreender as diferenças entre estratégias uniportal, biportal e over-the-top. O capítulo também destaca critérios de segurança para preservação facetária, proteção neural e vascular, controle de irrigação e conversão para cirurgia aberta quando necessário.
• Seleção da via cervicalA abordagem posterior é principalmente direcionada a compressões laterais e foraminais. Em estenoses centrais selecionadas, a descompressão over-the-top permite acessar o lado contralateral a partir de um corredor unilateral. Sistemas biportais acrescentam liberdade de instrumentação e podem facilitar procedimentos em níveis adjacentes. Casos de compressão medular difusa, mielopatia grave, ossificação extensa do ligamento longitudinal posterior, instabilidade ou deformidade significativa exigem cautela e podem favorecer técnicas convencionais.
• PlanejamentoRM e TC de alta resolução são essenciais. A RM define disco, raiz, medula e ligamentos; a TC fornece detalhes de osteófitos, facetas e extensão da ressecção óssea planejada. O posicionamento, a escolha do endoscópio e a organização dos portais variam conforme uniportal ou biportal. A monitorização neurofisiológica pode ser utilizada especialmente quando há risco medular.
• Foraminotomia e descompressãoA técnica uniportal utiliza referenciais ósseos posteriores para alcançar a junção laminofacetária, seguida de laminotomia e foraminotomia progressivas. O princípio é ampliar o corredor antes de manipular a raiz e evitar ressecção facetária capaz de gerar instabilidade. A descompressão termina quando a raiz está livre de compressão e apresenta mobilidade satisfatória. A artéria vertebral é um limite crítico lateral.
• Técnicas ampliadasO over-the-top permite trabalhar sob a base do processo espinhoso e descomprimir o lado oposto. Na técnica biportal, ótica e instrumentos ocupam portais independentes, facilitando angulações e uso de instrumentos semelhantes aos da microcirurgia.
• Resultados e complicaçõesO capítulo relata resultados comparáveis às técnicas convencionais para indicações adequadas, com benefícios perioperatórios e preservação de movimento. Os dois casos ilustrados nas Figuras 65.1 a 65.4 mostram uma radiculopatia foraminal e uma estenose central tratada por over-the-top. Complicações incluem lesão dural, déficit neurológico transitório, hematoma, recorrência, infecção e, raramente, lesão da artéria vertebral. Saber converter para cirurgia aberta diante de sangramento incontrolável ou lesão dural extensa é apresentado como parte do domínio da técnica.
• Aplicação clínica: Para uma radiculopatia unilateral provocada por hérnia ou osteófito foraminal, a via posterior pode permitir descompressão preservando o segmento móvel, desde que não exista instabilidade ou deformidade incompatível. Já uma compressão central exige análise mais criteriosa da extensão, número de níveis e gravidade da mielopatia. A avaliação pré-operatória deve definir previamente quanto osso precisa ser removido para criar espaço suficiente sem comprometer a faceta. O planejamento também deve antecipar a posição da artéria vertebral, principalmente quando a ressecção se estende lateralmente. No intraoperatório, visibilidade deficiente não deve ser compensada por manipulação cega ou elevação excessiva da pressão de irrigação. O cirurgião deve recuperar os referenciais anatômicos, controlar o sangramento e ampliar o corredor quando necessário. O capítulo reforça ainda um princípio importante para a formação: os primeiros casos devem ser focais, anatomicamente favoráveis e sem fatores adicionais de risco. A expansão das indicações deve acompanhar a maturidade técnica.