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Seção 2DiagnósticoCapítulo 14 de 109

Monitorização Neurofisiológica Intraoperatória em Cirurgia de Coluna

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Capa 3D Tratado de Coluna

Resumo Clínico do Capítulo

Síntese acadêmica, metodologia diagnóstica e recomendações cirúrgicas
Contexto Clínico

A monitorização neurofisiológica intraoperatória (MNIO) acrescenta à cirurgia da coluna uma avaliação funcional em tempo real, complementando a informação anatômica fornecida pela fluoroscopia e por outros recursos de imagem. A evolução desde o teste do despertar permitiu acompanhar vias motoras, sensitivas, raízes e nervos periféricos com o paciente sob anestesia geral. O capítulo aborda sua aplicação em deformidades, descompressões, artrodeses, tumores, trauma, cirurgia endoscópica, neuromodulação e acessos lombares por diferentes vias. A interpretação, entretanto, é complexa: alterações podem decorrer de lesão neural, posicionamento, tração, isquemia, hipotensão, hipotermia, medicamentos, bloqueio neuromuscular ou falhas técnicas de aquisição. Por isso, a MNIO deve ser multimodal e integrada ao planejamento, à anestesia e à sequência cirúrgica. Seu valor reside não apenas em emitir alertas, mas em permitir que a equipe identifique o mecanismo provável, reverta etapas potencialmente nocivas e adapte a estratégia antes que uma alteração funcional se torne irreversível.

Objetivo do Capítulo

Apresentar as principais técnicas de monitorização e mapeamento utilizadas em cirurgia da coluna, seus fundamentos, indicações e limitações. Ao final, o leitor deverá distinguir monitoramento de mapeamento; compreender o papel do potencial evocado motor córtico-miogênico, da onda D, do potencial evocado somatossensitivo, da eletromiografia e dos reflexos; reconhecer os requisitos anestésicos; e aplicar um protocolo estruturado diante de alertas em diferentes procedimentos e posicionamentos.

Monitoramento e mapeamento

O capítulo divide os testes conforme sua função. As técnicas de monitoramento acompanham a integridade das vias neurológicas ao longo da cirurgia; as de mapeamento identificam raízes, nervos ou outras estruturas no campo operatório. A Figura 1 organiza as modalidades segundo essas duas funções. O potencial evocado motor córtico-miogênico (PEMcm) avalia a via motora desde o córtex até o músculo e é apresentado como o principal teste motor. A onda D registra a resposta corticoespinhal na medula e acrescenta informação prognóstica, sobretudo em tumores intramedulares. Na Tabela 1, a preservação da onda D com perda do PEMcm é relacionada a déficit potencialmente transitório, enquanto queda superior a 50% da onda D associada à perda bilateral do PEMcm é relacionada a risco de déficit permanente. A técnica de onda D pelo ligamento interespinhoso — D-wave interspinous ligament technique (DWILT) — é menos invasiva, mas o próprio capítulo ressalta que ainda necessita de validação adequada. O potencial evocado somatossensitivo (PESS) acompanha as vias sensitivas cordonais posteriores e lemniscais mediais. Os sinais de alarme descritos são aumento de latência superior a 10% ou redução de amplitude maior que 50%. O PESS não deve ser utilizado isoladamente para predizer função motora, pois uma lesão da circulação espinhal anterior pode preservar as respostas sensitivas e comprometer gravemente a motricidade.

Modalidades complementares

A eletromiografia de varredura livre — free-running electromyography (frEMG) — detecta descargas neurotônicas relacionadas à irritação de raízes, plexos ou nervos, sem que sua presença seja sinônimo automático de lesão. A eletromiografia estimulada — triggered electromyography (tEMG) — é uma técnica de mapeamento empregada, entre outras situações, na instrumentação pedicular e nos acessos transpsoas. O reflexo H e o reflexo bulbocavernoso ampliam a avaliação das raízes S1 e S2–S4, respectivamente. O train-of-four(TOF) verifica a presença e a intensidade do bloqueio neuromuscular. O uso de ao menos um canal de eletroencefalograma (EEG), associado à análise espectral, auxilia na avaliação da hipnose e de sinais indiretos de nocicepção.

Anestesia e resposta aos alertas

O capítulo preconiza anestesia venosa total com propofol e opioides e recomenda evitar anestésicos inalatórios, bloqueio neuromuscular contínuo e fármacos que reduzam as respostas neurofisiológicas. Pressão arterial média, temperatura, hemoglobina, hematócrito e profundidade anestésica também interferem nos sinais.

Diante de queda do PEMcm, a equipe deve seguir três etapas:

verificar equipamento, conexões e eletrodos; revisar anestesia, bloqueio neuromuscular, hipnose e perfusão; afastadas essas causas, interromper a manobra, identificar o evento cirúrgico relacionado e revertê-lo quando possível. A Figura 9 mostra a progressão descrita pelo capítulo diante de lesão neural: redução do número de fases, queda da amplitude e, por fim, desaparecimento da resposta. O teste do despertar permanece como medida excepcional quando os recursos disponíveis não esclarecem a situação.

Aplicações por procedimento

Os testes de base devem ser obtidos antes de extensão cervical, tração ou posicionamento definitivo. Na instrumentação pedicular, o capítulo descreve a estimulação sequencial das etapas de preparação do trajeto, da introdução do implante e da cabeça metálica do parafuso. Em deformidades, a MNIO acompanha tração, osteotomias e manobras corretivas. Nas cirurgias cervicais, avalia os efeitos do posicionamento, da distração, da descompressão e dos implantes. Na artrodese intersomática lombar lateral — lateral lumbar interbody fusion (LLIF) — e na artrodese intersomática lombar oblíqua — oblique lumbar interbody fusion (OLIF) —, auxilia no mapeamento do plexo lombar e do nervo genitofemoral. Na artrodese intersomática lombar anterior — anterior lumbar interbody fusion (ALIF) —, pode detectar alterações relacionadas à retração vascular. Nas hérnias torácicas, concentra-se na preservação da via motora, podendo associar a onda D em casos selecionados.

Evidência e limitações

A MNIO é apresentada como uma intervenção complexa, dependente de equipe treinada e comunicação contínua. O capítulo reconhece a heterogeneidade dos protocolos e a dificuldade de produzir ensaios clínicos randomizados, mas relata revisões e diretrizes que sustentam sua capacidade de detectar risco neurológico e orientar mudanças intraoperatórias. A monitorização apenas formal, unimodal ou desconectada da tomada de decisão não substitui uma técnica cirúrgica segura. O desempenho depende da seleção adequada das modalidades, da qualidade dos sinais, da experiência do neurofisiologista e da integração entre cirurgião, anestesista e neurofisiologista.

Aplicação Clínica & Diretrizes

Na prática, a modalidade deve ser selecionada de acordo com a estrutura em risco e com a etapa crítica do procedimento. Antes do posicionamento definitivo, devem ser obtidas respostas de base; depois de extensão cervical, tração de ombros, posição prona ou lateral, os testes são repetidos para identificar alterações causadas pelo próprio posicionamento. Antes da estimulação transcraniana, o capítulo recomenda proteção antimordedura. Em cirurgias com risco medular, PEMcm e PESS devem ser combinados; a onda D pode acrescentar informação prognóstica em tumores intramedulares e hérnias torácicas selecionadas. Quando raízes sacrais estão expostas, reflexo H e reflexo bulbocavernoso podem ampliar a vigilância. Na instrumentação pedicular, a tEMG orienta o trajeto, mas uma resposta negativa não comprova posição anatômica correta; fluoroscopia, navegação e palpação permanecem complementares. Em LLIF ou OLIF, o mapeamento do plexo deve ser associado ao monitoramento motor, sensitivo e eletromiográfico contínuo. Diante de um alerta, a equipe primeiro exclui falha técnica, alteração anestésica, bloqueio neuromuscular, hipotensão, hipotermia ou redução da perfusão. Em seguida, revisa posicionamento, tração e o último passo cirúrgico, revertendo-o quando possível. Persistência ou recuperação insuficiente exige decisão individualizada sobre interromper ou postergar a cirurgia. O método deve ser conduzido por neurofisiologista capacitado, em comunicação contínua com cirurgião e anestesista.

Descritores Científicos DeCS / MeSH

Monitorização Neurofisiológica IntraoperatóriaIntraoperative Neurophysiological MonitoringPotencial Evocado MotorEvoked Potentials, MotorPotenciais Somatossensoriais EvocadosEvoked Potentials, SomatosensoryEletromiografiaElectromyographyMedula EspinalSpinal CordComplicações IntraoperatóriasIntraoperative ComplicationsSegurança do PacientePatient SafetyProcedimentos Cirúrgicos OperatóriosSurgical Procedures, OperativeOs descritores Monitorização Neurofisiológica Intraoperatória, Potencial Evocado Motor, Potenciais Somatossensoriais Evocados e Eletromiografia foram conferidos nas bases oficiais DeCS/MeSH.Também foram confirmadas as correspondências de Medula Espinal, Complicações Intraoperatórias, Segurança do Paciente e Procedimentos Cirúrgicos Operatórios.

Por que este capítulo importa

Uma lesão neurológica pode começar durante o posicionamento, a distração, a instrumentação, a retração vascular ou a correção de uma deformidade — antes que qualquer alteração seja visível no campo cirúrgico. Este capítulo mostra como a função neural pode ser acompanhada ao longo dessas etapas e como distinguir um evento cirúrgico verdadeiro de interferências anestésicas ou técnicas. Também esclarece por que tEMG, frEMG, PEMcm, PESS e onda D respondem a perguntas diferentes. Essa compreensão permite usar a MNIO como ferramenta ativa de decisão, e não apenas como registro formal do procedimento.

A MNIO só aumenta a segurança quando transforma sinais fisiológicos em decisões coordenadas. Monitoramento motor e sensitivo, mapeamento anatômico, anestesia compatível, linha de base pré-posicionamento e resposta sistematizada aos alertas formam um único processo. Nenhuma modalidade isolada garante integridade neural, e a ausência de alerta não substitui técnica cirúrgica adequada; o benefício depende da multimodalidade, da experiência do neurofisiologista e da comunicação da equipe.
Card 1 — Conceito essencial

Monitorar não é mapear

Monitoramento acompanha a integridade funcional ao longo da cirurgia; mapeamento localiza raízes, nervos e trajetos seguros. A tEMG pode orientar a instrumentação ou o acesso ao plexo, mas não demonstra, sozinha, que as vias motoras e sensitivas permanecem íntegras. Por isso, deve integrar um protocolo multimodal.

Card 2 — Decisão clínica

Alarme exige três checklists

Antes de atribuir uma queda do PEMcm à cirurgia, verifique equipamento e eletrodos, depois anestesia, bloqueio neuromuscular, hipnose e perfusão. Somente então revise posicionamento e passos operatórios, interrompendo ou revertendo a última manobra relacionada. A sequência reduz falsos alertas e acelera intervenções potencialmente reversíveis.

Card 3 — Pérola ou alerta

Linha de base antes da posição

Obtenha respostas antes de extensão cervical, tração, pronação ou posicionamento lateral. Caso a linha de base seja registrada somente depois, uma neuropraxia ou alteração medular induzida pelo posicionamento pode ser incorporada ao novo “normal”. Repetir os testes após cada mudança permite reconhecer e corrigir compressões precocemente.

Referências Bibliográficas Selecionadas

Literatura de alto impacto indexada no PubMed / DOI
64 Referências
1.As referências foram mantidas na ordem e com a numeração apresentadas no capítulo. A pontuação e a disposição foram uniformizadas segundo o estilo Vancouver, sem completar por suposição informações ausentes.
2.Vauzelle C, et al. Functional monitoring of spinal cord activity during spinal surgery. Clin Orthop Relat Res. 1973;(93):173-8.
3.Ferreira RJR, et al. Spinal deformity surgery. In: Verst S, et al. Intraoperative monitoring neurophysiology and surgical approaches. Springer; 2022. p. 459-493.
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Episódio 1 – Capítulo 8: Coluna Vertebral no Plano Sagital

Aprofunde-se no debate científico com os autores do capítulo discutindo casos práticos e condutas cirúrgicas.