InícioO TratadoCapítulosCapítulo 66
Seção 8Técnicas CirúrgicasCapítulo 66 de 109

ENDOSCOPIA CERVICAL — VIA ANTERIOR

A leitura completa deste capítulo está disponível exclusivamente na edição impressa oficial do Tratado.
Capa 3D Tratado de Coluna

Resumo Clínico do Capítulo

Síntese acadêmica, metodologia diagnóstica e recomendações cirúrgicas
Contexto Clínico

A abordagem anterior é uma das bases históricas da cirurgia cervical, principalmente após a consolidação da discectomia cervical anterior com fusão. A endoscopia introduz a possibilidade de tratar determinadas compressões anteriores de maneira direcionada, preservando movimento e evitando implantes em situações selecionadas. Sua aplicação, entretanto, ocorre em um corredor anatômico de alta complexidade, limitado por esôfago e traqueia medialmente e por estruturas vasculares lateralmente, além da proximidade da artéria vertebral. O reduzido espaço do canal cervical e a baixa tolerância da medula à manipulação tornam esse procedimento um estágio avançado da curva de aprendizado endoscópica. As abordagens transdiscal e transcorpórea oferecem diferentes soluções para hérnias e osteófitos, cada uma com vantagens e limitações próprias. A decisão deve integrar sintomas, topografia da compressão, estabilidade, altura discal, anatomia óssea e experiência específica da equipe.

Objetivo do Capítulo

Apresentar anatomia aplicada, indicações, contraindicações e fundamentos técnicos da endoscopia cervical anterior. O leitor deverá compreender os acessos transdiscal e transcorpóreo, selecionar pacientes por correlação clinicorradiológica, reconhecer situações que favoreçam outra abordagem e antecipar complicações neurológicas, durais, vasculares e viscerais.

O corredor anterior

O acesso transdiscal utiliza um corredor entre as estruturas viscerais e vasculares do pescoço, representado esquematicamente na Figura 66.1. Os autores valorizam palpação e instrumental rombo para criar o trajeto até a face anterior da coluna. A artéria vertebral torna-se particularmente relevante em trajetórias mais laterais. Em determinados casos, uma trajetória contralateral pode melhorar o ângulo para uma lesão lateral.

Transdiscal e transcorpóreo

A abordagem transdiscal proporciona acesso direto ao disco e a fragmentos centrais ou centrolaterais. A alternativa transcorpórea cria um corredor ósseo pelo corpo vertebral, evitando maior manipulação discal, mas túneis excessivos podem comprometer a resistência vertebral.

Indicação e seleção

O capítulo enfatiza radiculopatia ou mielopatia com correlação clínica e radiográfica definida. Alterações degenerativas incidentais não são indicação. Instabilidade segmentar contraindica a endoscopia isolada. Colapso importante do espaço discal pode dificultar a via transdiscal. Ossificação extensa do ligamento longitudinal posterior e deformidades complexas aumentam a exigência técnica e devem ser avaliadas individualmente. RM, radiografias dinâmicas e TC são complementares no planejamento.

Evidências e preservação de movimento

Séries e estudos comparativos apresentados no capítulo descrevem resultados clínicos favoráveis e recuperação rápida em pacientes bem selecionados. A preservação do movimento e a ausência de implantes diferenciam conceitualmente a endoscopia da fusão. Ao mesmo tempo, os autores reconhecem a ausência de séries endoscópicas específicas com seguimentos muito prolongados, de modo que inferências sobre prevenção de doença do segmento adjacente devem ser consideradas com cautela.

Complicações e curva de aprendizado

A Tabela 66.1 sistematiza paresia radicular, lesão medular ou radicular, hematoma, lesão dural, lesões da artéria vertebral, carótida ou jugular, infecção, disfagia, disfonia, instabilidade tardia, descompressão insuficiente e recorrência. O capítulo trata a endoscopia cervical como procedimento avançado, dependente de treinamento progressivo e supervisionado.

Aplicação Clínica & Diretrizes

A indicação deve responder a uma pergunta anatômica precisa: a lesão responsável pelos sintomas pode ser alcançada e descomprimida de forma segura por um corredor anterior endoscópico sem criar instabilidade ou risco desproporcional? RM identifica a relação do disco ou osteófito com raiz e medula. TC esclarece calcificação, osteofitose e anatomia óssea; radiografias dinâmicas investigam instabilidade. Uma lesão foraminal pode permitir tanto acesso anterior quanto posterior, e a escolha deve considerar localização, altura discal e experiência da equipe. Durante o acesso anterior, a proteção vascular e visceral começa antes da introdução do endoscópio. Instrumentos perfurantes não devem ser utilizados para criar cegamente o corredor. Na fase endoscópica, não há margem para manipulação direta da medula. No pós-operatório, a ausência de fusão permite mobilização precoce, mas não elimina a necessidade de acompanhamento. Dor persistente, novo déficit ou sintomas atípicos devem motivar investigação de descompressão insuficiente, hematoma, lesão dural ou complicação vascular.

Descritores Científicos DeCS / MeSH

EndoscopiaEndoscopyVértebras CervicaisCervical VertebraeDeslocamento do Disco IntervertebralIntervertebral Disc DisplacementRadiculopatiaRadiculopathyEstenose EspinalSpinal StenosisProcedimentos Cirúrgicos Minimamente InvasivosMinimally Invasive Surgical ProceduresComplicações Pós-OperatóriasPostoperative Complications

Por que este capítulo importa

Poucas áreas ilustram tão claramente que “minimamente invasivo” não significa “baixo risco”. O acesso cervical anterior endoscópico atravessa um corredor estreito entre estruturas cuja lesão pode produzir consequências graves. Ao mesmo tempo, oferece a possibilidade de descompressão seletiva sem fusão em pacientes adequados. O capítulo é importante porque desloca a discussão de “endoscopia versus cirurgia convencional” para a pergunta mais relevante: qual via oferece a melhor relação entre descompressão, preservação de função e segurança naquele paciente?

A endoscopia cervical anterior é uma estratégia de preservação do movimento para compressões bem selecionadas, mas seu benefício depende de uma combinação restrita de indicação correta, corredor anatômico seguro e domínio técnico avançado. A ausência de uma grande incisão não reduz a importância das estruturas vasculares, viscerais e neurais adjacentes. Quando estabilidade, anatomia ou extensão da doença tornam o acesso desfavorável, outra técnica deve ser escolhida.
Card 1 — Corredor de alta complexidade

A via anterior passa entre estruturas viscerais e vasculares antes de atingir a coluna. A criação delicada desse corredor e o uso de instrumental rombo constituem princípios de segurança antes mesmo da etapa endoscópica.

Card 2 — Disco ou corpo vertebral

O acesso transdiscal e o transcorpóreo solucionam problemas diferentes. Preservar o disco pode ser desejável, mas a criação de um túnel ósseo excessivo também apresenta consequências estruturais.

Card 3 — Endoscopia não corrige instabilidade

Quando existe instabilidade segmentar significativa, a simples descompressão endoscópica não resolve o problema biomecânico. Reconhecer essa limitação evita aplicar uma técnica de preservação de movimento a um segmento que necessita estabilização.

Referências Bibliográficas Selecionadas

Literatura de alto impacto indexada no PubMed / DOI
22 Referências
1.Smith GW, Robinson RA. The treatment of certain cervical-spine disorders by anterior removal of the intervertebral disc and interbody fusion. J Bone Joint Surg Am. 1958;40-A(3):607-24.
2.Ahn Y, Lee SH, Shin SW. Percutaneous endoscopic cervical discectomy: clinical outcome and radiographic changes. Photomed Laser Surg. 2005;23(4):362-8.
3.Komp M, Oezdemir S, Hahn P, Ruetten S. Full-endoscopic posterior foraminotomy surgery for cervical disc herniations. Oper Orthop Traumatol. 2018;30(1):13-24.
Videocast SBC
Assistir Videocast
Tratado em Debate • Videocast

Episódio 1 – Capítulo 8: Coluna Vertebral no Plano Sagital

Aprofunde-se no debate científico com os autores do capítulo discutindo casos práticos e condutas cirúrgicas.