Resumo Clínico do Capítulo
Síntese acadêmica, metodologia diagnóstica e recomendações cirúrgicasA endoscopia unilateral biportal (UBE, Unilateral Biportal Endoscopy) combina princípios da cirurgia endoscópica com a triangulação característica da microcirurgia. Diferentemente dos sistemas uniportais, utiliza portais independentes para ótica e instrumental, permitindo maior liberdade de movimentos e emprego de diversos instrumentos convencionais sob irrigação contínua. Sua evolução acompanhou a expansão da cirurgia minimamente invasiva e hoje abrange principalmente hérnias discais e estenoses lombares, incluindo compressões centrais, foraminais e extraforaminais, além de revisões. O segundo portal também possibilitou desenvolvimento de artrodeses e aplicações em cenários selecionados de maior complexidade. O método, porém, cria desafios próprios: posicionamento inadequado dos portais, perda da triangulação, ressecção excessiva das facetas, controle deficiente da irrigação e sangramento epidural podem comprometer o resultado. A técnica exige compreensão do espaço de trabalho, preservação anatômica e treinamento estruturado.
Introduzir os fundamentos da UBE e oferecer um roteiro conceitual para sua incorporação à prática. O leitor deverá reconhecer indicações e limitações, compreender a influência da lateralidade e da mão dominante na organização dos portais, planejar o corredor endoscópico e prevenir complicações relacionadas à dura-máter, estruturas neurais, facetas, irrigação e hemostasia.
Na UBE, um portal é destinado à visão e outro ao instrumental. Essa independência preserva triangulação e amplia a liberdade de movimento. A irrigação contínua cria o espaço visual e auxilia no controle do sangramento, desde que exista drenagem adequada. O triângulo do multífido, também denominado espaço de Son, é apresentado como referência anatômica fundamental para a abordagem posterior inicial. As Figuras 67.5 e 67.6 demonstram esse corredor.
As principais indicações são hérnia discal e estenose lombar central, do recesso lateral, foraminal ou extraforaminal. A abordagem paraespinhal pode ser particularmente útil em compressões extraforaminais, síndrome far-out e síndrome de Bertolotti. O capítulo descreve também extensão progressiva para revisões com fibrose epidural, doença do segmento adjacente, falha de artrodese, fraturas, síndrome da cauda equina e determinadas lesões extradurais. Aplicações intradurais permanecem preliminares e ainda carecem de evidência robusta.
Instabilidade não tratada, espondilolistese de alto grau, infecção ativa e tumores que exijam ressecções amplas ou apresentem risco de disseminação pela irrigação são contraindicados pelos autores. Deformidades complexas, calcificações extensas e anatomia muito distorcida constituem limitações relativas.
O planejamento integra RM, TC, radiografias dinâmicas e, quando necessário, eletroneuromiografia ou bloqueios seletivos. Lateralidade da doença e dominância manual influenciam a disposição dos portais. A criação correta do espaço de trabalho, identificação progressiva dos referenciais ósseos e preservação do ligamento amarelo até a fase adequada orientam a navegação. A técnica denominada Butterfly exemplifica ressecção organizada do ligamento amarelo, ilustrada pela Figura 67.7.
O capítulo apresenta resultados favoráveis em doenças degenerativas, com redução de trauma e recuperação rápida em diversas séries. Comparações com técnicas uniportais e tubulares mostram diferenças que dependem da indicação, sem justificar uma superioridade universal. Lesão dural, hematoma epidural, lesões neurais, extravasamento de fluido, descompressão inadequada e instabilidade por facetectomia excessiva estão entre os eventos relevantes.
A principal pergunta clínica não é se uma doença “pode” ser tratada por UBE, mas se os dois portais oferecem vantagem concreta naquele corredor. Em uma estenose central ou multissegmentar, a liberdade instrumental pode facilitar uma descompressão ampla. Em revisões, a possibilidade de dissecar fibrose sob visão endoscópica pode ser útil. Em compressões extraforaminais, a abordagem paraespinhal pode evitar trajetórias desfavoráveis. O planejamento dos portais deve ser feito em função da patologia e não de uma distância fixa reproduzida mecanicamente. Uma triangulação inadequada compromete desde o início a visualização e a capacidade de manipulação. A irrigação deve produzir fluxo contínuo, e não simplesmente pressão. O capítulo enfatiza que sangramentos venosos podem parecer controlados enquanto o sistema está pressurizado e reaparecer ao final; por isso, a revisão hemostática antes do encerramento é essencial. A preservação facetária deve permanecer como objetivo mesmo quando a técnica permite ressecção rápida. Descompressão mais extensa não é sinônimo de melhor descompressão se provocar instabilidade secundária.
