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Seção 88Capítulo 88 de 109

Vertebrectomia Torácica e Lombar nas Neoplasias

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Capa 3D Tratado de Coluna

Resumo Clínico do Capítulo

Síntese acadêmica, metodologia diagnóstica e recomendações cirúrgicas
Contexto Clínico

A vertebrectomia torácica e lombar em oncologia espinhal é um procedimento cirúrgico de extrema complexidade e alta exigência técnica, voltado ao tratamento de lesões tumorais primárias malignas, tumores benignos agressivos e metástases espinhais solitárias. O acometimento neoplásico da coluna vertebral acarreta instabilidade biomecânica, dor mecânica grave, fraturas patológicas e compressão de estruturas neurológicas, afetando drasticamente a funcionalidade do paciente. Os principais desafios cirúrgicos envolvem a execução de ressecções com margens adequadas enquanto se preservam as estruturas vasculares e neurais adjacentes, além de gerenciar a expressiva morbidade e o elevado risco de sangramento intraoperatório. Nesse cenário, o procedimento busca proporcionar o controle tumoral local, o alívio sustentado da dor e a preservação ou recuperação do status neurológico. A correta seleção dos candidatos, amparada por uma abordagem multidisciplinar e avaliação rigorosa da expectativa de vida e do status funcional, é determinante para equilibrar a magnitude do ato cirúrgico com os benefícios clínicos esperados, permitindo taxas de sobrevida global satisfatórias e ganho em qualidade de vida.

Objetivo do Capítulo

O capítulo objetiva capacitar o leitor a compreender as indicações e contraindicações da vertebrectomia torácica e lombar nas neoplasias, dominando o planejamento pré-operatório, o estadiamento cirúrgico e a escolha das vias de acesso. Adicionalmente, visa detalhar os princípios das técnicas de ressecção e reconstrução — incluindo inovações como a técnica de Gasbarrini —, capacitando o especialista a reconhecer, prevenir e manejar complicações perioperatórias graves.

Indicações, Contraindicações e Estadiamento Cirúrgico

A vertebrectomia é indicada para tumores malignos primários (como cordomas e sarcomas) buscando ressecção marginal ou ampla; tumores benignos agressivos recorrentes ou refratários (ex.: tumor de células gigantes e osteoblastomas); e metástases solitárias em pacientes com doença sistêmica controlada e longa expectativa de vida, especialmente lesões radioresistentes. O planejamento utiliza o sistema de estadiamento Weinstein-Boriani-Biagini (WBB), que mapeia a extensão transversal em 12 zonas radiadas e 5 camadas concêntricas (A a E), além dos níveis longitudinais. As contraindicações incluem invasão de estruturas nobres com morbidade proibitiva, fragilidade do paciente, baixa expectativa de vida e antecedente de radioterapia no local operado.

Planejamento Pré-operatório, Vias e Embolização

O manejo requer equipe multidisciplinar (com cirurgiões vasculares, torácicos e equipe de terapia intensiva) e disponibilidade de hemoderivados. A embolização pré-operatória (realizada pelo menos 48 horas antes) é recomendada no nível afetado e nos níveis adjacentes (protocolo de três níveis) para lesões hipervasculares, atenuando a perda sanguínea. Deve-se preservar a artéria que irriga a artéria espinhal anterior para evitar isquemia medular. A escolha da via varia: abordagens posteriores ou posterolaterais são preferidas para a coluna torácica superior (T2-T5); para T5-L5, empregam-se vias posteriores puras, anteriores ou combinadas anteroposteriores. Na transição toracolombar (T11-L2), deve-se avaliar a relação anatômica com diafragma, costelas e pleura.

Princípios Técnicos de Ressecção e Reconstrução

A cirurgia exige estabilização prévia por instrumentação estendida a pelo menos dois níveis proximais e dois níveis distais. Durante a osteotomia e a corpectomia, utiliza-se suporte com haste provisória contralateral para manter a estabilidade. Os elementos posteriores e os discos intervertebrais adjacentes são liberados, estendendo-se a dissecção no espaço peridural com proteção do saco dural. A reconstrução da coluna anterior emprega cages (gaiolas expansíveis ou fixas) de titânio, polieteretercetona com fibra de carbono (PEEK/CF) ou próteses personalizadas impressas em 3D associadas a enxerto ósseo. Na técnica proposta por Gasbarrini, adiciona-se um aloenxerto semicircular de diáfise femoral congelada no segmento posterior, encaixado entre os processos espinhosos residuais e fixado com bandas sublaminares, visando proteger a dura-máter, prevenir fibrose aderente e otimizar a fusão 360 graus.

Resultados e Manejo de Complicações

A sobrevida em cinco anos para tumores primários varia entre 51% e 72%, com taxas de recidiva local inferiores a 10% quando obtidas margens livres. Contudo, as taxas de complicações cirúrgicas e necessidade de revisão podem ultrapassar 50%, destacando-se infecções da ferida operatória, complicações pulmonares e falhas biomecânicas da instrumentação. A prevenção de sangramento maciço envolve embolização criteriosa e hipotensão induzida com pressão arterial sistêmica (PAS) entre 80 e 100 mmHg. A preservação neurológica exige dissecção romba cautelosa e limitação da ligadura de artérias segmentares a menos de quatro níveis. Avanços como a toracoscopia videoassistida (VATS), endoscopia biportal e sistemas robóticos surgem como alternativas para minimizar a morbidade do procedimento.

Aplicação Clínica & Diretrizes

Os conceitos apresentados guiam a tomada de decisão desde a triagem oncológica inicial até a reabilitação pós-operatória. Na fase avaliativa, a combinação de ressonância magnética e angiotomografia possibilita o estadiamento anatômico pelo sistema WBB, guiando a seleção da via de acesso e a viabilidade do corredor cirúrgico. Clinicamente, a indicação deve equilibrar o controle tumoral com os riscos biomecânicos, sendo crucial rastrear a fragilidade óssea sistêmica e tumoral para planejar estratégias de reforço, como o uso de parafusos pediculares fenestrados cimentados ou amarrias sublaminares. Durante a execução, a aplicação rigorosa do protocolo de suporte hemodinâmico, a proteção de grandes vasos por dissecção romba anterior e a monitorização neurológica intraoperatória são medidas indispensáveis de segurança. A decisão sobre o tipo de reconstrução anterior e posterior, alinhada à extensão da fixação (mínimo de dois níveis acima e dois abaixo), é vital para prevenir falhas tardias do implante, cifose progressiva e colapso, especialmente em pacientes com indicação de radioterapia adjuvante. Em situações de cautela, como o histórico de radioterapia prévia ou tumores hipervasculares não embolizados, a intervenção requer extremo cuidado em razão do risco elevado de deiscência de ferida, infecção, hemorragia maciça e lesão isquêmica medular.

Descritores Científicos DeCS / MeSH

Neoplasias da Coluna VertebralVertebrectomiaVértebras TorácicasVértebras LombaresFusão EspinhalEmbolização TerapêuticaSpinal NeoplasmsSpondylectomyThoracic VertebraeLumbar VertebraeSpinal FusionTherapeutic EmbolizationSistema WBBTécnica de GasbarriniReconstrução circumferential

Por que este capítulo importa

A vertebrectomia representa a fronteira entre o controle cirúrgico curativo e a morbidade catastrófica no tratamento das neoplasias da coluna vertebral. Este capítulo oferece um guia prático e fundamentado para a navegação segura em procedimentos de alta complexidade. Ao integrar o estadiamento cirúrgico de Weinstein-Boriani-Biagini, estratégias avançadas de embolização e técnicas inovadoras de reconstrução circumferential — como a técnica de Gasbarrini —, o texto capacita o especialista a otimizar a tomada de decisão clínica, reduzir taxas de hemorragia e falha biomecânica, protegendo o eixo neural e elevando os padrões de segurança do paciente.

A vertebrectomia torácica e lombar é um procedimento oncologicamente eficaz e altamente complexo que proporciona controle local, alívio da dor e preservação neurológica em pacientes selecionados com neoplasias primárias agressivas ou metástases solitárias. O sucesso terapêutico fundamenta-se no planejamento multidisciplinar, no estadiamento pré-operatório rigoroso pelo sistema WBB, na embolização preventiva e na reconstrução circumferential biomecanicamente estável, minimizando o risco de complicações e falhas de implante.
Card 1 — Conceito essencial

Sistema WBB e Estadiamento Cirúrgico

O sistema Weinstein-Boriani-Biagini (WBB) é a ferramenta fundamental para o planejamento cirúrgico das neoplasias espinhais. Ele mapeia a extensão transversal do tumor em 12 zonas radiadas e cinco camadas concêntricas (A a E), além dos níveis longitudinais acometidos. Essa caracterização anatômica precisa orienta a escolha do corredor de acesso, definindo a viabilidade da ressecção em bloco e as margens cirúrgicas adequadas.

Card 2 — Decisão clínica

Protocolo de Embolização e Vascularização

A embolização pré-operatória é recomendada para tumores hipervasculares e deve ser realizada pelo menos 48 horas antes da vertebrectomia. A oclusão do nível afetado e dos níveis adjacentes reduz o sangramento em até 25%. Contudo, é imprescindível identificar e preservar a artéria responsável pela irrigação da artéria espinhal anterior para evitar complicações isquêmicas medulares graves.

Card 3 — Pérola ou alerta

Reconstrução de Gasbarrini e Proteção

A técnica de Gasbarrini utiliza um aloenxerto femoral congelado semicircular posicionado na coluna posterior, fixado com bandas sublaminares e mantido sob compressão longitudinal. Além de promover a fusão circumferential em 360 graus e a estabilidade biomecânica, o enxerto atua como uma barreira física que protege o saco dural contra cicatrizes aderentes e facilita eventuais cirurgias de revisão ou radioterapia adjuvante.

Referências Bibliográficas Selecionadas

Literatura de alto impacto indexada no PubMed / DOI
62 Referências
1.Schneider E, Lutschounig MC, Straub J, Vertesich K, Krepler P, Rienmüller A, et al. En Bloc Total Vertebrectomy of the Thoracic and Lumbar Spine. J Clin Med. 2024;13(17):5312.
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3.Mody GN, Bravo Iñiguez C, Armstrong K, Perez Martinez M, Ferrone M, Bono C, et al. Early Surgical Outcomes of En Bloc Resection Requiring Vertebrectomy for Malignancy Invading the Thoracic Spine. Ann Thorac Surg. 2016;101(1):231-7.
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Episódio 1 – Capítulo 8: Coluna Vertebral no Plano Sagital

Aprofunde-se no debate científico com os autores do capítulo discutindo casos práticos e condutas cirúrgicas.